Inicial Infanto-juvenil ENTREVISTA: Ralf König e a caricatura na Alemanha

ENTREVISTA: Ralf König e a caricatura na Alemanha PDF Imprimir E-mail
Escrito por Kultur Agenda   
Qua, 07 de Outubro de 2009 14:03
Ralf König em seu estúdio - Fonte: dpa/paRalf König é um dos mais importantes autores alemães de histórias em quadrinhos e é conhecido principalmente pelas suas obras humorísticas e satíricas e, as vezes, também provocativas tratando de assuntos como homosexualidade e religião.

1) O que lhe vem à cabeça quando você ouve a palavra Brasil?

Para dizer a verdade, em um namorado brasileiro, um misto de machão atrativo e criança imatura, com quem me relacionei durante seis anos. Foi o relacionamento amoroso mais intenso da minha vida, uma época turbulenta e nem sempre agradável. Obviamente o país Brasil não é responsável por isso! Uma vez eu estive com ele no Rio e foi o máximo! Eu não consegui entrar no mar, porque as ondas enormes sempre me jogam de volta para a praia. Uma verdadeira comédia. Todas as crianças mergulhavam por baixo das ondas e brincavam na água. Eu me senti ridículo. Mas lá havia um homem mais lindo do que o outro, por isso também foi bom ficar só na areia.

2) Existe uma série de autores de histórias em quadrinhos brasileiros, tais como Laerte (Piratas do Tietê), Angeli, que às vezes também gosta de "narizes de batata" (histórias em quadrinhos sobre a vida urbana, como, por exemplo, Chiclete com banana) ou Níquel Náusea, que fazem muito sucesso aqui no Brasil. Já as traduções são problemáticas. É por isso também que no país da maior Parada Gay não há até agora uma tradução disponível de Ralf König. O humor é diferente de país para país ou do que depende isso?

Na realidade, a minha experiência é outra, ou seja, que os gays neste planeta são muito parecidos em suas manias e seus comportamentos e que exatamente por isso os meus livros também fazem sucesso no exterior. Na Espanha, Franca, Suécia, etc., as minhas histórias são bem aceitas. Eu acho que o que falta é uma editora competente que divulgue a coisa e a coloque no mercado. Pode ser que o humor seja considerado "muito alemão" pelos brasileiros.  Assim como eu não consegui entrar no mar, pode ser que o humor também tenha as suas dificuldades. Eu gostaria de conhecer o trabalho dos colegas brasileiros.

3) Em suas últimas historias em quadrinhos você aborda temas bíblicos de maneira agradavelmente não convencional. Desde o começo de janeiro, a FAZ está publicando "Archetyp", no final do ano passado, foi publicado "Prototyp", a série da FAZ está retomando a história de Noé, e o "Prototyp" a história da criação. O que o levou a trabalhar com temas religiosos? Existe uma relação com as antigas histórias em quadrinhos "Dschinn".

Dschinn foi o primeiro passo para o tema religioso. Naquela época, depois do 11 de setembro de 2001, o foco das notícias estava sobre o Afeganistão e o talibã, e eu tive a idéia de um mulá fundamentalista e bitolado, que aparece como gênio da garrafa das 1001 noites em uma república gay e causa tumulto. Aí veio a polêmica das caricaturas e eu percebi como eu hesitei em transformar temas islâmicos em historias em quadrinhos, porque de repente isso representava uma ameaça para os meus colegas de profissão, os caricaturistas e desenhistas. O episódio com Salman Rushdie realmente aconteceu, e com Theo van Gogh também, e agora pessoas morreram e embaixadas foram queimadas por causa de algumas piadas sobre profetas! Eu fiquei irado e desenhei alguns cartuns com o tema
"Tolerância demais do mundo ocidental em relação ao mundo islâmico intolerante", para os quais eu ganhei posteriormente o "Max und Moritz Preis" no festival de histórias em quadrinhos em Erlangen. Mas religião sempre foi um problema para mim, tanto faz em que Deus se acredita. Eu cresci em uma região bastante católica e já quando era pequeno eu achava inacreditável esse charlatanismo. E como homossexual a minha postura em relação às religiões não tem que ser nem um pouco amigável, considerando o ódio impertinente com que eles nos tratam.

4) Entre os trabalhos do "Prototyp" e do "Archetyp" você anunciou que queria tratar de assuntos menos metafísicos. O que será isso?

Eu ainda tenho munição para alguns assuntos religiosos, estou planejando colocar "nariz de batata" em dois santos. Depois disso chega, senão corre-se o risco de se apegar demais ao tema e tão importante ele não é para mim. E eu nunca planejo mais do que um ou dois livros, e depois... vamos ver.

5) Enquanto Franziska Becker, a desenhista de "Emma" é quase uma cronista do "movimento feminista" na Alemanha, você o é do movimento gay. O que este lhe oferece como tema hoje?

Na verdade, estou meio perdido. Depois de quase 30 anos fazendo quadrinhos sobre o tema, não surgiu nada verdadeiramente novo no cenário e, aos 48 anos estou velho demais para poder falar aos mais jovens. Por isso tenho a impressão de que cada tira que me ocorre hoje, já foi pensada anteriormente, só que muito melhor e mais viva. De certa forma, meus personagens sempre serão homossexuais, uma vez que vejo o mundo com olhar homossexual, mesmo em se tratando de outros contextos. Tratar apenas da homossexualidade me entedia, tudo é tão previsível. E as mulheres e os homens hétero não são menos engraçados e para mim um campo novo. Ou santos ou animais ou seja lá o que for.

6) Quatro de seus livros "Der bewegte Mann" (O homem ideal), "Kondom des Grauens" (A camisinha do horror), "Wie die Karnikel" (Como os coelhos) e "Lysistrata" foram transformados em filme com Till Schwaiger, Peter Lohmeyer e Iris Barben entre outros, o que é estranho para um quadrinista. Nunca foram desenhos animados. Por quê?

Já se pensou nisso várias vezes, mas nunca apareceu ninguém disposto a investir o dinheiro. Talvez os produtores receassem lançar um desenho animado para uma minoria, que só seria apresentado em dois ou três festivais de filmes gays e depois esquecido. Mas agora tem se falado em produzir um desenho animado longa metragem do "Prototyp" - justamente a historia bíblica da criação com Adão e Eva, lá não há homossexuais.