LITERATURA
 

CORNELIA FUNKE: A fantasia
OTIMISMO EM LEIPZIG: Editoras comemoram aumento de vendas
LEIPZIG LÊ: Está aberta a temporada dos livros
SINAL DOS TEMPOS: Brockhaus só em versão virtual
INTERCÂMBIO LITERÁRIO: Escritores brasileiros na Alemanha
GRASS NA POLÔNIA: Escrever para não esquecer
MARCEL REICH-RANICKI: O papa da literatura alemã

FELICITAS HOPPE: Viajando pela literatura
FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE: Presença alemã
CORNÉLIA FUNKE: A alemã mais influente do mundo
BIBLIOTECA DIGITAL: Livros raros na rede
CAPITAL DO LIVRO: Feira de Frankfurt tem participação recorde
GÜNTER GRASS: Cidade natal festeja 80 anos do escritor
MAIOR FEIRA DE LIVROS DO MUNDO: Catalunha e Quadrinhos em foco
LIVROS: Autores latinos em foco
"VIAGENS IMAGINÁRIAS": Karl May ganha exposição em Berlim
BRASIL EM FOCO: Projeto escolhe país para promover literatura alemã
STEFAN ZWEIG: O exílio e o isolamento de um filósofo
BIBLIOTECA PELA INTERNET: Livros emprestados sem sair de casa
MIA COUTO: Releitura moçambicana de Schiller
"ACONTECIMENTO WEIMAR”: Exposição recorda Goethe
BIBLIOTECA VIRTUAL : Literatura alemã online
GOETHE: O cientista da paixão
LEIPZIG: Uma festa de livros a cada ano
TEMPESTADE E PAIXÃO: O lado romântico do alemão
LITERATURA INFANTIL: Histórias sem fim


26.03.08 – CORNELIA FUNKE:
A fantasia   ACIMA

Ela é a autora infanto-juvenil mais bem-sucedida da Alemanha: milhões de jovens mergulham no seu mundo mágico em todo o mundo. Em 2008, “Coração de Tinta” chega também aos cinemas.
Cornelia Funke - Fonte: Arquivo da revista "Deutschland" Cornelia Funke

“Choveu naquela noite, uma chuvinha fina, murmurante”. Sra. Funke, que acha desta frase?
Tenho de admitir que ainda me agrada muito. Lida em voz alta, dá um gosto muito bom na língua.

Com as primeiras palavras do seu livro “Coração de Tinta”, a senhora tirou o segundo lugar no concurso das melhores frases iniciais da literatura infanto-juvenil da fundação Stiftung Lesen. Quanto tempo necessitou para elaborar a frase?
Segundo me lembro, não necessitei muita elaboração. Ela já se apresentou quase exatamente assim, sem maiores cerimônias.

Agora, os personagens de “Coração de Tinta” chegam ao telão. Em 2008, será lançada em todo o mundo a versão cinematográfica de seu best-seller, filmada por Hollywood. Qual é a sua sensação, quando vê agora os personagens da própria imaginação num filme?
Não é a primeira vez que tenho esta experiência, mas desta vez tive uma participação muito maior, o que torna tudo ainda mais excitante. Duas experiências foram especialmente impressionantes: em primeiro lugar, entrar na aldeia de Capricórnio e, de repente, ser rodeada por seus homens sinistros, todos querendo meu autógrafo num livro. E então, chegar aos estúdios Shepperton e ver Dedo Empoeirado lá, na chuva entre árvores, com uma marta chifruda no ombro – e pensar: céus, ele é exatamente como eu o imaginei.

Com Brendan Fraser e Iain Softley, os estúdios de Hollywood cumpriram seus desejos quanto ao ator principal e ao diretor. como a senhora logrou isto?
Só consegui impor Brendan Fraser, porque Iain Softley apoiou inteiramente a escolha. E, no que diz respeito a ele como diretor, com a sua paixão pelo projeto e o seu renome, ele convenceu o estúdio de que era o mais adequado. Eu fiquei muito feliz com esta escolha e a apoiei de todas as formas possíveis.

Inicialmente, a senhora ilustrava livros. Por que começou a escrevê-los?
Porque as histórias que ilustrava, às vezes, me entediavam. Ou não me ocorria nenhuma imagem para elas.

E como a senhora imergiu na trilogia do “Mundo de Tinta”?
Tudo começou quando eu quis evocar personagens de livros. Todo leitor conhece a sensação de que tais figuras parecem freqüentemente mais vivas que as pessoas que nos rodeiam na vida real. É que podemos olhar profundamente nos seus corações. Então juntou-se a idéia de que elas podem ser extraídas pela leitura. Uma idéia que está muito próxima de mim, pois admiro muito a arte da leitura em voz alta.

O que a senhora escreve, entusiasma milhões de jovens leitores em todo o mundo. Como sabe tão bem o que as crianças e jovens querem ler? Busca inspiração nas crianças?
Naturalmente que sim. Entre outros, nos meus filhos. No mais, escrevo simplesmente o que me dá prazer de contar. E, por sorte, isto agrada a muitos leitores.

Como e quando surgem então as idéias para as suas histórias?
Sempre e em toda parte. Por esta razão, trago sempre um bloco de anotações comigo e tenho um ao lado da minha cama. Uma caneta também é necessária, naturalmente.

Contudo, principalmente a sua trilogia do “Mundo de Tinta” é lida também pelos adultos. O que lhes atrai nos seus livros?
Isto, naturalmente, os leitores poderiam responder muito melhor, não é? Eu sou uma tradicional contadora de histórias. Eu registro em palavras e histórias o que me toca e expresso assim o que muitos sentem, pensam, amam ou odeiam. Além disso, eu me permito usar minha força de imaginação como um brinquedo muito divertido. Um brinquedo com o qual se reveste a realidade, libertando-se de suas regras. E é através disso, às vezes, que se pode vê-la de forma clara. Os adultos também gostam, pelo visto, de participar deste jogo.

Quase todos os seus livros narram mundos mágicos. O que a fascina tanto na literatura fantástica?
O fato de poder utilizar inteiramente livre o instrumento tão tipicamente humano que é a fantasia. Podemos dar asas aos cavalos e criar gigantes, entrar no enredo de um livro e nos fazer tão pequenos quanto formigas – que aventura! E em tudo isto, só brincamos com aquilo que o nosso mundo nos oferece, pois nós realmente não podemos imaginar algo que esteja inteiramente fora disto.

Apesar de todo o êxito de vendas, esse gênero não é levado a sério pelos críticos. Isto a irrita?
Não. Pois tenho muito prazer no que faço. Até mesmo me agrada trabalhar fora do setor literário consagrado. A gente se sente como a menina do conto de Hans Christian Andersen, que está à beira da calçada e grita: “Mas ele está completamente sem roupa”.

Melhoraram as chances para autores de livros juvenis, graças a “Harry Potter” e aos seus livros?
Sem dúvida, e principalmente graças ao Harry. De repente, não é mais nenhum problema, escrever livros grossos para crianças ou, às vezes, ser sinistro. E já que tantos ganharam tanto dinheiro com o Potter, hoje também se investe muito mais nos livros infantis. Divulga-se muito melhor. A atenção do comércio livreiro é muito maior – e, naturalmente, também são feitos mais filmes.

Que livros a senhora recomenda a seus filhos, à parte dos seus próprios?
Minha filha tem agora 18 anos e lê Dostoiévski e Tolstói. Meu filho não gosta de ler e ama muito mais o seu skateboard. Mas, por sorte, lê-se muito nas escolas americanas, de forma que está lendo agora, com muito prazer, “Animal Farm” e “War of the Worlds”. Eu lhe recomendaria sempre David Almond e Markus Zusak. Além disso, há ainda naturalmente “Krabat” e “Jim Knopf” etc. etc.…

Com “Morte de Tinta”, a última parte da sua trilogia “Mundo de Tinta”, a senhora lidera a lista de best-sellers. Em poucos meses, “Coração de Tinta” estreará nos cinemas. Não é a hora de uma pausa para descanso?
Não. Estou trabalhando, já há meses, em duas novas histórias. Eu adoro o que faço. Assim, não se quer fazer pausa. Estou trabalhando atualmente numa história de fantasmas para crianças a partir de oito anos de idade, que se desenrola em Salisbury, na Inglaterra, e tem o título provisório de “O cavaleiro e o menino”. E num outro projeto, que no momento tem apenas um título em inglês, “Reckless”, destinando-se à mesma faixa etária dos leitores da trilogia “Tinta”.

Rainer Stumpf (Revista "Deutschland")


17.07.08 - OTIMISMO EM LEIPZIG:
Editoras comemoram aumento de vendas   ACIMA
Público na feira - Fonte: dpa Grandes debates

Após anos de dificuldades, as editoras alemãs comemoram o aumento na venda de livros de 3,9 por cento em 2007. No último dia da Feira do Livro de Leipizig, que festejou a cultura da leitura entre os dias 14 e 16 de março, a Associação Alemã do Comércio Livreiro se mostrou otimista quanto ao futuro dos livros. “O livro mostra o caminho para o futuro”, declarou o presidente da Associação, Gottfried Honnefelder. Também o Presidente Horst Köhler saiu em defesa dos livros durante uma roda de discussão em Leipzig. “Seria ruim se o livro perdesse sua importância para a televisão ou para a internet. Mas não é isso que está acontecendo, então isto é bom”, disse o Presidente.

Mais de 2300 editoras de 40 países participaram da feira, que contou com a presença de cerca de 129 mil visitantes. Dois temas importantes deste ano foram a literatura da Croácia – que teve 37 autores presentes – e os 40 anos do movimento de 68, lembrados pela presença de importantes atores da época como Rainer Langhans – guro da revolução sexual na Alemanha – e Jutta Ditfurth – uma das fundadoras do Partido Verde.

Mariana Antoun


10.03.08 – LEIPZIG LÊ:
Está aberta a temporada dos livros   ACIMA
Leitura na Biblioteca Nacional Leituras também estão na programação

13 de março é o dia: a Feira do Livro de Leipzig abre suas portas até 16 de março para editoras, autores, jornalistas e naturalmente para leitores interessados de todo o mundo. Sendo o mais importante encontro da temporada para o ramo de livros e mídia ela junta-se à Feira do Livro de Frankfurt como um gerador de impulso de caráter importante para o mercado de livros.

No contexo da festa da leitura “Leipzig lê” a Feira introduz seus visitantes de maneira incomum na vida de Leipzig: em cada canto da cidade – em livrarias, igrejas, museus, bares e salões de cabeleireiros – oferece-se a oportunidade ler lançamentos, assim como de conhecer atuais e inovadoras tendências do mercado europeu e de língua alemã.

Mais de 1900 eventos em 350 localidades zelam por um programa rico e diversificado durante a Feira, e não é nada estranho que no último ano contabiliza-se mais de 127 mil visitantes.

O crescimento sempre constante da quantidade de visitantes deve-se entre outras coisas a uma reorientação da Feira: Por um lado, a Feira fortaleceu a proximidade com o leitor como uma extensa plataforma de comunicação literária, através de novos e chamativos parceiros para cooperação, como a editora Bertelsmann. Além disso acontece, desde 1995, como complemento do programa oficial, a Feira de Livros Antigos de Leipzig.

Também o crescente interesse em áudiolivros se estabelece no conceito da Feira. Fabricantes de áudiolivros podem se submeter ao 5º Campeonato Internacional de Áudiolivros para Novos Talentos, com trabalhos elaborados em alemão ou ingles sobre o tema “Visão Interior”.

A este novo conceito faz parte também a promoção da literatura do centro e leste europeu. Assim, abre este incício de ano com uma apresentação enfática sobre a literatura croata, através de um cuidadoso projeto que durará três anos. “Nosso principal objetivo é dirigir mais atenção à paisagem da literatura croata”, esclarece o diretor da Feira do Livro de Leipzig, Oliver Zille. Numerosos eventos em torno da Croácia literária, de todos os tipo, dão à festa da leitura desta ano um tom especial.

Redação

LINKS:
http://www.leipziger-buchmesse.de/
http://www.leipzig-liest.de/
http://www.leipzig.de/


18.02.08 – SINAL DOS TEMPOS:
Brockhaus de graça na internet   ACIMA
Instalação da Brockhaus em Feira do Livro - Fonte: dpa Lançamento da última edição, 2005

Exatos 200 anos separam a fundação da editora Brockhaus, em 1805, da última versão impressa de sua Enciclopédia, em 2005. Foram 21 edições do léxico de maior tradição na Alemanha, que em sua primeira edição tinha apenas 10 livros. A notícia de que a editora deixaria de imprimir o item antes obrigatório nas estantes das famílias alemãs não surpreendeu especialistas e nem a própria mídia: o fracasso nas vendas da última publicação dos 30 volumes - que contêm cerca de 300 mil verbetes e 40 mil gráficos e fotos – já anunciava o triste fim. O anúncio, no entanto, não deixou de despertar um certo saudosismo.

Os principais veículos de informação alemães deram a notícia, a maioria em tom de nostalgia. O jornal Frankfurter Allgemeine publicou: “Fim da edição impressa da Blockhaus: nosso conhecimento vive agora apenas na cabeça, não mais na estante”. No pequeno Esslinger Zeitungen a notícia anunciava “a morte de um clássico”. Já o Welt online e o sítio da revista Stern destacavam um outro lado da notícia: a presença da enciclopédia na internet.

A editora de Mannheim, criada por Fridrich Arnold Brockhaus, anuncia que no próximo dia 15 de março disponibilizará todos os verbetes gratuitamente na internet. E ganha assim novos concorrentes, como a Wikipedia, enciclopédia online que pode ser editada pelos leitores e que hoje (18.02) conta com 709 mil verbetes e artigos. Para o porta-voz da editora, Klaus Holoch, a concorrência não assusta. À Deutsche Welle ele afirmou: “Nós iremos, certamente, nos diferenciar de outras ofertas, como a Wikipedia. Apostamos em relevância, correção e segurança. Nós não seremos manipulados”.

Para isso a Brockhaus conta com cerca de 60 pessoas em uma redação na cidade de Leipzig. É de lá que tentarão tornar a tradicional bíblia da cultura alemã em um produto viável para a editora, que publica, entre outros, o também famoso dicionário “Duden”. No entanto, uma 22ª edição da enciclopédia – mesmo que virtual – ainda é uma incógnita. Segundo Klaus Holoch, provavelmente ela não existirá.

Mariana Antoun


12.12.07 – INTERCÂMBIO LITERÁRIO:
Escritores brasileiros na Alemanha  ACIMA

Paulo Coelho e outros autores de renome no Brasil invadem prateleiras e ocupam as listas de mais lidos no país

Com grandes nomes como Paulo Coelho, Jorge Amado, Érico Veríssimo, seu filho Luiz Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Lya Luft e muitos outros, os autores brasileiros ganham cada vez mais espaço no mercado literário alemão. Vários escritores de coração verde e amarelo já garantiram seu lugar na mesa de cabeceira do cidadão alemão.

Um dos escritores mais traduzidos para a língua alemã é Jorge Amado. Como símbolo de sua glória ele faz parte da linha crítica de literatura da edição Textos e Críticas (Text und Kritik) e ganha espaço nas prateleiras dos professores ginasiais das escolas alemãs. A narrativa: “Gabriela, cravo e canela” até hoje é admirada pelos leitores. Muitas obras de Jorge Amado foram adaptadas para as telas de cinema, como o famoso romance: “Dona Flor e seus dois maridos”.

Paulo Coelho, provavelmente um dos autores brasileiros mais conhecidos, não cansa de vender livros na Alemanha. O sucesso mundial, “O Alquimista”, se posicionou seis anos na lista de Bestsellers da Alemanha. Segundo uma entrevista dada ao ZDF Online, Paulo Coelho deixa bem claro seu respeito pelo país. “Vejo a Alemanha com a inocência de uma criança. Reconheço em vocês (os alemães) a postura firme perante o presente e é a mesma postura que não deixa vocês esquecerem o passado.” Como prova de seu sucesso na Alemanha, na feira do livro de Frankfurt, Paulo Coelho, entrou para o Guinness Book of Records como o autor que mais assinou livros em edições diferentes.

Já Chico Buarque, mais conhecido como cantor e compositor, sempre soube exatamente como juntar as palavras para formar as canções mais tocantes e poéticas. Hoje suas obras são extremamente respeitadas na Alemanha. No entanto, a população alemã ainda sente certo receio com seus romances. Porém, “Budapeste”, lançado em 2003, vendeu bastante, teve críticas, tanto positivas quanto negativas.

Outro escritor que degusta o sabor do sucesso na Alemanha é Luiz Fernando Veríssimo. Com os romances policiais: “O Jardim do Diabo” e “O Clube dos Anjos”, os leitores alemães já mergulharam nas histórias do filho que seguiu a mesma carreira do pai, Érico Veríssimo. As obras do escritor Érico Veríssimo já circulam nas livrarias e bibliotecas da Alemanha. A trilogia: “O tempo e o vento” é somente um de seus romances mundialmente reconhecidos.

Outra escritora cujo caminho também percorre a Alemanha é Lya Luft. A autora já traz um pouco do alemão em seu sobrenome: Luft, que significa ar. Como ela nasceu em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, uma cidade de colonização alemã, a maioria das crianças lá dominavam o alemão. Assim, aos 11 anos já decorava poemas de Goethe e Schiller. Lya Luft traduziu livros de renomados autores da língua alemã como Rainer Maria Rilke, Hermann Hesse, Günter Grass e Thomas Mann.

Martha Ayres Denk


27.10.07 – GRASS NA POLÔNIA:
Escrever para não esquecer  ACIMA
Günter Grass - Fonte: Wikimedia Commons Autor polêmico

Oskar tinha apenas três anos de idade quando parou de crescer. Por protesto ou genética. Passou a observar as mazelas do mundo adulto a partir da sua perspectiva de anão e virou uma das maiores críticas literárias à desagregação e ao individualismo que se apoderam das pessoas em regimes totalitários. Ganhou um tambor e dele fez o seu companheiro durante todo o romance. De seu autor, fez o maior escritor alemão da atualidade. Oskar é protagonista de Die Blechtrommel (O Tambor), de 1960, livro com o qual Günter Grass estreou e através do qual se internacionalizou. Hoje o poeta, escritor e dramaturgo nascido em 1927 em Danzig – quando a cidade de tradição alemã ainda não fazia parte da Polônia (o que aconteceu após a 2ª Guerra Mundial) – é nobel de literatura.

A temática de sua obra fez jus ao lema da sua vida de poeta e escritor: “escrever para não esquecer”. E Günter Grass abordou em seus romances temas sejam atuais ou históricos, mas sempre registros da realidade. Assim publicou Katz und Maus e Hundejahre – que juntamente com Die Blechtrommel compõem a „trilogia de Danzig“ -, Aus dem Tagebuch einer Schnecke e Im Krebsgang. Assumiu suas inclinações políticas e tornou-se membro do Partido Social Democrata (SPD) por um período de 10 anos. Redigiu o discurso do candidato do partido de Willy Brandt na campanha de 61, participou de comícios, criticou o chanceler conservador Kurt Georg Kiesinger na sua eleição em 1966 pela participação política durante a Segunda Guerra Mundial e à essa análise dedicou o romance Örtlich Betäubt – muito bem recebido pela crítica nos EUA. A autobiografia Beim Häuten der Zwiebel, lançada em 2006, gerou grande polêmica em torno de seu nome, quando Grass contou pela primeira vez sobre a sua participação na Waffen-SS, quando foi ferido em linha de combate e virou prisioneiro americano na Tchecoslováquia.

A libertação veio logo em 1946, quando dedicou-se ao trabalho como agricultor e em minas de potássio. Para a sobrevivência, fez bicos também como porteiro do clube de Jazz Lokal Csikos, em Düsseldorf, juntamente com o futuro pintor alemão Herbert Zangs; o mesmo que ele eternizou em seu primeiro romance. Em dois anos sua escolha definiria-se pela arte com a entrada para a Academia de Artes em Düsseldorf. Lá estudou de 1948 a 1952 artes plásticas e gráficas. Depois mudou-se para Berlim, onde freqüentou a Universidade de Belas Artes, tendo sido aluno do escultor Karl Hartung. Foi no final dos estudos, quando já realizava exposições em Berlim e Stuttgart, que a predileção pela arte da literatura se revelou. Antes de partir para os livros, no entanto, Grass comecou como poeta. Através da sua poesia passou a integrar o “Grupo 47”, um encontro anual entre escritores de lígua alemã organizado pelo também escritor Hans Werner Richter. O próximo passo seria a dramaturgia. Em 1966 escreveu o drama que tornou-se sua peça de teatro mais famosa: em Die Plebejer proben den Aufstand aborda a rebelião dos trabalhadores no dia 17 de junho de 1953, na antiga RDA (República Democrática Alemã), e o papel dos intelectuais marxistas nessa temática.

Para uns ele é o narrador do século. Para outros, o destruidor da paz por suas provocações.  Günter Grass foi merecedor de vários prêmios pela sua obra dentro e fora da Alemanha. É professor-doutor de honra nas universidades de Berlim e Danzig, onde também é cidadão benemérito. Ganhou Casa de Cultura em sua homenagem na cidade Lübeck, onde mora atualmente e onde em 2005 fundou o círculo dos autores Lübeck 05, criou a Fundação Otto Pankok e é apoiador oficial da associação pro-gays LSVD Aktion 1:1, que defende os direitos iguais na vida a dois. Morou em Paris e em Calcutá com a primeira e então com a segunda esposas, com as quais teve 5 filhos.

Seus 80 anos, completos no último dia 16 de outubro, foram festejados em todo país e também na cidade natal - que hoje em dia já não pertence mais à Alemanha e voltou a chamar-se Gdanski, como originalmente. A celebração organizada em Göttingen, na Baixa-Saxônia, contou com a presença de 2000 convidados em data que reuniu personalidades da cena européia e a seguinte honraria em telegrama: “...pela ocasião do seu aniversário envio-lhe os meus mais sinceros votos de felicidade. Como maior escritor alemão você tornou-se a cara da literatura alemã no mundo. Com o significado da sua obra você contribuiu para que a nossa cultura fosse vista sob uma nova perspectiva após o Terceiro Reich e a guerra e por isso sou-lhe grato. Você sempre se pronunciou em prol dos colegas perseguidos e proibidos. Envolveu-se em questões políticas e ajudou na formação da opinião pública. No dia 27 de outubro (ocasião da comemoração pelo aniversário, em Lübeck) estarei presente para reforçar a minha declaração”. E ele esteve. Horst Köhler, Presidente da Alemanha.

Aline Mara Afonso


22.11.07 – MARCEL REICH-RANICKI:
O papa da literatura alemã   ACIMA

“O fato de eu ter conseguido me tornar o que sou é a minha maior vingança contra Hitler”, disse em entrevista ao jornal “O Globo” em julho de 2002. Marcel Reich-Ranicki sobreviveu ao gueto de Varsóvia para voltar à terra que o deportou e perseguiu, e consagrar-se nela como uma espécie de papa; o “papa da literatura”. Ele, judeu polonês; crítico respeitado e popular de obras da língua alemã.

O amor pelos livros começou na infância, acentuou-se durante a vida no gueto e definiu-se de uma vez por todas durante as semanas em que esteve preso por razões políticas, já no pós-guerra. Daí em diante foi autor, tradutor, chefe de redação, liderou programa de TV, foi co-criador de um dos mais importantes prêmios da literatura alemã, é professor honorário de mais de uma universidade no país e já recebeu inúmeras homenagens pelo seu trabalho em torno da literatura: “É o amor por ela que possibilita ao crítico o exercício da profissão. E de vez em quando pode ser também esse amor que faz para muitos a figura do crítico suportável e até mesmo, com exceções, simpática”. Ele é polêmico. Rasga livros, não mede os adjetivos. É odiado por muitos autores e já foi assassinado em mais de um romance - verdadeiros best-sellers.

A vida não se anunciava dura nem mesmo quando a fábrica de material de construção de seu pai foi à falência. Como alternativa a família deixou Wloclawek, na Polônia, rumo a Berlim. A integração foi fácil, uma vez que Marcel já estudava em escola alemã na cidade natal. A ascensão do regime nazista na Alemanha não o impediu de concluir o ginásio, mas não permitiu o ingresso na renomada Friedrich-Wilhelm-Universität. Logo veio a deportação para a Polônia e em seguida o início da vida no gueto. Lá, integrou a equipe do Conselho Judaico nomeado pelos nazistas e graças à função de tradutor, ele e a esposa Teófila foram poupados do campo de concentração de Treblinka até a fuga em 1943. Para os meses a seguir encontraram abrigo na casa do gráfico Bolek Gawin até a libertação pelas mãos soviéticas em setembro de 1944.

Como conseqüência natural à perseguição alemã e à libertação através dos russos, Marcel Reich ingressou no partido comunista. Não demorou muito para destacar-se entre os integrantes e ocupar cargos de chefia, passando à polícia secreta polonesa e ao vice-consulado na embaixada da Polônia em Londres, onde o sobrenome alemão – Reich – deu vez ao fictício Ranicki, que viria a integrar-se definitivamente à sua identidade. Em 1948, após o nascimento do filho Andrzej Alexander, Marcel Reich-Ranicki pediu transferência para Varsóvia, onde em pouco tempo a carreira diplomática encontrou seu fim abrupto a partir da acusação de “afastamento ideológico”, decorrência, segundo registrou em sua autobiografia - “Minha Vida” –, de uma conspiração dentro do partido. Foi então que, em 1950, passou algumas semanas na prisão e foi confrontado com a obra “A Sétima Cruz”, da escritora alemã Anna Seghers; momento que considera um divisor de águas entre as carreiras política e literária.

Se o regresso ao partido comunista lhe foi por inúmeras vezes negado, o caminho da literatura lhe abria as portas. Através dos escritores Siegfried Lenz e Wolfgang Koeppen, Marcel teve contato com editores de jornais, rádios e TVs, e acesso ao Gruppe 47 – um encontro organizado por Hans Werner Richter entre escritores alemães famosos. Foi lá, por exemplo, que reviu Günter Grass, de quem viria a rasgar em público algumas obras. O primeiro encontro deu-se em Varsóvia do pós-guerra, quando Grass teria contado sobre a obra “O Tambor”, futuro nobel de literatura. A Ranicki ficara apenas a lembrança de “uma tarde monótona, na qual um homem que não podia ser levado a sério impressionava mal através da imagem que poderia ser a de um bêbado”.

O posto de chefe de redação do caderno de literatura do diário Frankfurter Allgemeine, para o qual escreve até hoje, veio após 13 anos de crítica literária para o jornal Die Zeit e 15 de residência na Alemanha. O Frankfurter chegava através da amizade com o jornalista e co-editor Joachim Fest. A partir desse diário, Marcel lançou a “Antologia do Frankfurter”, que reúne mais de 1.500 poesias de autores de língua alemã. A crescente credibilidade como crítico rendeu-lhe ainda a criação, junto com outros amantes da literatura, em 1977, do Ingeborg-Bachmann-Preis, que rapidamente assumiu a vez de prêmio mais significativo da literatura de língua alemã.

Sua absoluta popularização, no entanto, veio anos mais tarde, com a liderança do programa “Quarteto Literário”, da emissora ZDF, onde ele e três outros críticos debatiam durante 75 minutos cinco obras selecionadas. Com o fim do “Quarteto” em 2001, Marcel assumiu o monólogo literário através do programa “Solo”, também apresentado pela ZDF. Em contra-partida aos 13 anos do “Quarteto”, o tempo de vida de “Solo” não ultrapassou os 11 meses. Mas Marcel já estava consagrado. Daí seguiram-se inúmeros convites para o professorado em universidades suecas e alemãs até a homenagem, este ano, na Humboldt-Universität, na capital. Em 16 de fevereiro a universidade berlinense reconheceu a sua culpa e responsabilidade na recusa do ingresso do então aluno Marcel, quando ainda chamava-se Friedrich-Wilhelm-Universität.

Ele foi perseguido, teve os pais mortos na câmara de gás, o irmão fuzilado e a irmã refugiada em Londres. Agora é papa. Da literatura alemã.

Aline Mara Afonso


16.11.07 – FELICITAS HOPPE:
Viajando pela literatura  ACIMA

A escritora Felicitas Hoppe adora nomes, de preferência estranhos. Assim, ela teve que fincar pé com sua editora para manter o título de seu romance “Pigafetta”, de 1999, que conta as impressões de uma viagem de navio pelo mundo, de Hamburgo a Hamburgo e os relatos de Antonio Pigafetta, companheiro de Fernão de Magalhães na sua viagem de circunavegação no início do século XVI.

De volta para a Alemanha depois de vir ao Brasil no contexto do Kulturfest - Estação Alemã 2007-2008, ela leva na bagagem pelo menos dois nomes para seu repertório de esquizitices: “Adorei o nome Garrincha e Curupira”. Garrincha, ela conheceu durante visita ao Maracanã e Curupira vendo a obra do artista Walmor Corrêia na exposição “Os Trópicos”, no Centro Cultural Banco do Brasil.

A escritora, que mora em Berlim, veio ao Brasil onde participou da Feira de Livros de Porto Alegre, capital do Estado brasileiro do Rio Grande do Sul. De passagem por Brasília realizou leituras no Centro Cultural Banco do Brasil onde está em cartaz a exposição “Os Trópicos” e no Goethe-Zentrum Brasília. A autora leu trechos do livro "Pigafetta", de sua autoria e que é relacionado ao tema dos trópicos e conversou também com os participantes sobre a literatura jovem alemã.

Josiane Cotrim


09.11.07 – FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE:
Presença alemã  ACIMA
Felicitas Hoppe - Fonte: Divulgação/ Goethe Felicitas Hoppe

Este fim de semana será a última oportunidade para os moradores de Porto Alegre, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul, conferirem a 53ª Feira do Livro da cidade. Os visitantes da Praça da Aldândega e arredores poderão visitar o estande do Goethe-Institut e da Livraria Goethe e conferir as várias novidades nas áreas de literatura e informação da Alemanha.

A Feira de Porto Alegre acontece a céu aberto, oferecendo as tradicionais bancas de livros e uma programação completa que envolve eventos para escolas, sessões de autógrafos, palestras, oficinas e apresentações artísticas. E o país berço das feiras de livros – a Feira do Livro de Frankfurt, que a maior do gênero no mundo, acontece desde 1480! – não poderia estar de fora.

A Alemanha, através do Instituto Goethe de Porto Alegre se fez presente não só no estande, como também em palestras, leituras, depoimentos e debates. O porto alto desta participação foi a presença da jovem escritora Felicitas Hoppe, ontem, no Memorial Rio Grande do Sul. Ela participou da palestra Viajantes de Ultramar.

A presença de Felicitas Hoppe na Feira do Livro de Porto Alegre fez parte do projeto Kulturfest. Ela apresentou um dos cinco perfis que aparecem em seu livro Verbrecher und Versager (Criminosos e Fracassados), John Hagenbeck (1844-1913), famoso caçador alemão que capturava e treinava animais selvagens. Após ler trechos do livro, que foi traduzido para o português, ela respondeu a perguntas da platéia.

“A literatura alemã não tem uma tradição forte em livros sobre viagens. O desejo de olhar para fora surgiu mais na década de 90”, comentou. Segundo ela, a partir de 1945 os escritores da Alemanha se ocuparam deles mesmos, de falar de um país assolado pela guerra e dividido ao meio.

Uma das perguntas que respondeu foi: “A viagem é uma busca ou uma fuga?”

“Não saberia responder, pois muitas são as razões que levam alguém a sair de seu país de origem. E a primeira delas pode ser a necessidade, a imposição”, respondeu a escritora, que ainda lembrou: “A literatura alemã não tem uma tradição forte em livros sobre viagens. O desejo de olhar para fora surgiu mais na década de 90”.

Para quem quiser saber mais sobre a 53ª Feira do Livro de Porto Alegre e a presença alemã no evento, visitem os sites:

Goethe POA
53ª Feira do Livro

Mariana Antoun


06.11.07 – CORNÉLIA FUNKE:
A alemã mais influente do mundo  ACIMA
Cornelia Funke - Fonte: dpa Livros infantis de sucesso

Desde que a revista norte-americana “Time” concedeu, por dois anos consecutivos, o título de “alemã mais influente do mundo” para a autora infantil Cornélia Funke está evidente: os livros infantis “Made in Germany” passaram a ser não apenas mais visíveis, como também festejados no mercado americano.

Para as editoras de língua alemã, essa é uma tendência que se faz sentir já há algum tempo. No mundo inteiro foram vendidos cinco vezes mais direitos autorais de livros infantis e juvenis: “A demanda de livros infantis alemães no exterior tem aumentado. Isso se explica por possuírem alto valor, serem bem pesquisados e de boa qualidade literária. Daí desfrutarem de boa fama no estrangeiro” diz Dominique Nüse da Lowe Editora, que edita os maiores sucessos atuais da literatura alemã, os autores Cornélia Funke e Kai Meyer.

Por muito tempo, o mercado editorial americano e inglês esteve praticamente fechado às editoras alemãs. “Isso se dava, primeiramente, pela grande oferta de livros nesses países, mas também pelo fato dos editores não entenderem bem o alemão e não confiarem em opiniões externas” diagnostica Renate Reichstein do grupo editorial de Hamburgo, Oetinger, ao qual pertence a escritora Kirsten Boie que recebeu o Prêmio Alemão de Literatura.

Diante da falta de leitores da língua alemã nas casas editoriais anglosaxãs, Cornélia Funke resolveu traduzir ela própria seu livro “Herr der Diebe” para o inglês, o que lhe conferiu maior visibilidade internacional no ano de 2002 e que chamou a atenção do editor de Harry Potter, Barry Cunningham, para a sua obra. Desde então, livros infantis alemães traduzidos para o inglês são mais facilmente encontrados no mercado.

Mas os livros alemães sempre foram vendidos no exterior. No pós-guerra, quando a produção era precária, a escritora Astrid Lindgren preocupou-se em editar Erich Käster na Suécia. Nos anos 1960 Michael Ende e Otfried Preußler se precipitaram no mercado internacional. Desde os anos 1990 e até hoje nomes como Peter Härtling, Janosch, Christine Nöstlinger e Rafik Schami são garantia de sucesso. Sozinho, o romance de Härtlings “Ben liebt Anna” já foi traduzido em mais de 20 línguas.

Enquanto isso, direitos autorais são vendidos para a China, Coréia e Taiwan mas também para países da Europa oriental como República Tcheca, países Bálticos, Balcãs e Ucrânia onde a demanda de livros infantis em alemão aumenta continuamente.

Josiane Cotrim


17.10.07 – BIBLIOTECA DIGITAL:
Livros raros na rede  ACIMA
Robô digitaliza livros - Fonte: dpa Robô trabalhando

Um robô trabalha sem parar na Biblioteca Estadual da Bavária, em Munique, escaneando cerca de 37 mil livros hostóricos. As edições raras do século XVI deverão estar prontas até 2009 e colocadas à disposição dos interessados na Internet. Trata-se do primeiro projeto de digitalização em massa de obras literárias promovido pela Sociedade de Pesquisa Alemã, a Deutsche ForschungsgemeinschaftDFG.

No total serão escaneadas mais de 7,5 milhões de páginas. Esse banco de dados literário constituirá a Biblioteca Digital Alemã.

Josiane Cotrim


10.10.07 – CAPITAL DO LIVRO:
Feira de Frankfurt tem participação recorde  ACIMA
Feira literária - Fonte: dpa Já está aberta ao público!

A 59ª edição da Feira de Frankfurt começou no último dia 10 com um número de participantes nunca antes registrado. Sete mil, quatrocentos e quarenta e oito expositores – 176 a mais – vindos de 108 diferentes países mostram seus títulos na maior feira de livros do mundo. Quase 400 mil obras e produtos editoriais serão mostrados nesse evento literário mundialmente famoso.

Este ano o convidado de honra é a Catalunha. Mas, além da literatura catalã, os pontos alto da feira são: a digitalização, a educação e o aprendizado contínuo assim como estratégias contra o analfabetismo. O número de vendas indica que o setor está indo bem. Pelo menos mil autores apresentaram-se nos cerca de 2500 eventos da feira. Os primeiros três dias são dedicados aos especialistas do setor e no fim de semana a feira é aberta ao público em geral. Os organizadores calculam um número em torno de 280 mil visitantes este ano.

Josiane Cotrim


05.10.07 – GÜNTER GRASS:
Cidade natal festeja 80 anos do escritor  ACIMA
Günter Grass - Fonte: dpa Autobiografia polêmica

A cidade histórica de Danzig era parte da Alemanha quando Günter Grass nasceu, em 1927. Depois da Segunda Guerra Mundial Danzig - Gdansk em polonês – passa a fazer parte da Polônia. É ali que estão sendo realizadas festas e atividades culturais em comemoração do aniversário de 80 anos do seu filho mais ilustre: Günter Grass, prêmio Nobel de Literatura, autor de “O Tambor” e “Nas peles da Cebola” que acaba de ser traduzido para o polonês.

A confissão de Günter Grass de que serviu na SS no final da II Guerra Mundial gerou controvérsias no ano passado. Grass escreveu uma carta para a prefeitura da cidade dizendo que ele foi convocado para as SS e que não agiu livremente, em 1944. O ponto alto dos três dias de comemorações de seus 80 anos foi o debate sobre o futuro das relações da Alemanha e Polônia do qual participou o ex-presidente polonês Lech Walesa, entre outros. Mas, a festa contou também com concertos musicais e exposições inclusive com obras de Grass que além de escritor é artista plástico. Seu trabalho inclui pinturas, aquarelas, esculturas, litografias, gravuras e desenhos. O artista doou cerca de 50 de seus trabalhos para sua cidade natal.

Josiane Cotrim


01.10.07 – MAIOR FEIRA DE LIVROS DO MUNDO:
Catalunha e Quadrinhos em foco   ACIMA
Instalação da Brockhaus em 2005 - Fonte: Andreas Praefcke/ Wikimedia Commons Instalação na feira de 2005

A Feira do Livro de Frankfurt deste ano com certeza atenderá ao gosto de todos os amantes da literatura. De 10 a 14 de outubro os fãs da leitura serão atraídos à região do Rio Meno por cerca de 2700 eventos, todos ligados ao universo dos livros e de seus autores.

Com um vasto leque de opções, os visitantes poderão participar desde de um workshop sobre desenhos de mangá, até conhecer um pouco mais sobre a convidada de honra desta edição: A literatura da Catalunha.

Sob o lema "Singular i Universal - Einzigartig und Universell" a cultura catalã será apresentada através de uma proveitosa viagem por oito séculos de literatura da região da Catalunha, começando pelo filósofo da idade média Ramin LLull até encontrar famosos e desconhecidos autores e autoras da atualidade.

O espaço “Fascinação dos quadrinhos” cresceu e este ano terá no salão 3.0. J807, durante toda a feira, a presença do trabalho de 94 artistas da arte dos comics vindos de 10 países (2006: 73). Será possível encontrar as figuras mais ilustres da cena dos comics e mangás.  Um dos pontos altos ficará por conta do workshop de mangá com a artista mangaka alemã Judith Park.

História secular
A Feira do Livro de Frankfurt nos moldes que conhecemos hoje foi criada em 1949. No entanto, por trás do atual evento há uma tradição muito mais antiga. Em Frankfurt há mais de 500 anos os livros são negociados em feiras especiais - manuscritos até antes, em feiras genéricas. Não é por acaso que um certo Johannes Gensfleisch, mais conhecido como Johannes Gutemberg, nasceu nas proximidades do Rio Meno.

O inventor da prensa de tipos móveis nasceu em 1445 na cidade de Mainz. Sua técnica foi escolhida 550 anos depois pela revista norte-americana Time-Life como a descoberta mais importante do segundo milênio do calendário cristão.

Já Frankfurt do Meno tem vocação para feiras desde a Idade Média, quando manuscritos já faziam parte do comércio. Com a chegada do novo meio de impressão, não demorou para que fosse realizada a primeira Feira do Livro da cidade – em 1480!

Leipizig: a rival
A censura da Contra-Reforma afastou muitos editores da ultra católica Frankfurt, e abriram espaço para que a Feira do Livro de Leipizig crescesse muito em importância, ultrapassando Frankfurt na metade do século 17. Leipzig continuou a cidade alemã mais importante para os livros até a divisão da Alemanha em 1949.

Retorno de Frankufurt e convivência pacífica
A divisão da Alemanha proporcionou à antiga metrópole do livro uma nova ascensão. Em setembro de 1949 aconteceu na Igreja Paulskirche, em Frankfurt, a primeira Feira do Livro do pós-guerra. Já no segundo ano Frankfurt superou novamente a concorrente Leipzig em tamanho e importância. Durante a Guerra Fria, na época da Cortina de Ferro, a Feira de Leipizig tinha especialmente a importância de promover o encontro entre intelectuais do leste e do oeste.

Desde a reunificação alemã após a queda do muro em 1989 há uma coexistência pacífica entre Leipzig e Frankfurt: enquanto Leipzig é o mais importante encontro do início do ano para o ramo, Frankfurt é novamente a maior e mais importante Feira do Livro do mundo.

Redação


05.09.07 – LIVROS:
Autores latinos em foco  ACIMA
Wole Soyinka - Fonte: dpa Prêmio Nobel, Wole Soyinka

A produção literária da América Latina é o destaque da sétima edição do Festival Internacional de Literatura de Berlim, que começou esta semana. Nomes como Isabel Allende e Mario Vargas Llosa estão entre os convidados e a língua portuguesa se fará presente com o escritor brasileiro Reginaldo Ferreira da Silva e o português António Lobo Antunes. O evento está entre as maiores manifestações literárias nesse gênero que ocorrem no país.

Até 16 de setembro o programa do festival inclui mais de 250 atividades dos mais variados tipos, dos quais participarão um número estimado em 150 escritores, alguns vencedores do prêmio Nobel de Literatura. Discussões, debates, leituras em locais insólitos, nas prisões por exemplo, serão realizados pelos escritores que lerão sempre na língua em que escrevem. A literatura infanto-juvenil também faz parte da pauta de discussão.

Josiane Cotrim


08.08.07 – "VIAGENS IMAGINÁRIAS":
Karl May ganha exposição em Berlim  ACIMA
Karl May em pintura de Selmar Werner - Fonte: WikiCommons Karl May em pintura de Selmar Werner

O legado de Karl May (1842-1912) não é pequeno. Com mais de 200 milhões de livros vendidos ele é o escritor alemão com maior número de edições publicadas. As aventuras de seus personagens Winnetou, Old Shatterhand e Kara Ben Nemsi foram traduzidas para 40 línguas e povoaram a imaginação de gerações inteiras. O Museu Histórico de Berlim dedica a ele uma exposição que conta sua ascensão como escritor famoso. Filho de tecelão pobre, Karl May tornou-se best-seller e seus personagens se popularizaram também em filmes e no teatro.

Numerosas pinturas, desenhos, fotografias e documentos sobre culturas indígenas utilizados na composição de suas histórias compõem a mostra, que pretende dar uma visão geral da repercussão dos livros de Karl May até hoje. A narração de suas viagens pela América do Norte e Oriente foram lidas em quartos de crianças de diferentes lugares do mundo.Várias vezes ele afirmou que as aventuras de seus personagens foram também vivenciadas por ele: " Sim, eu sou Kara Ben Nemsi", escreveu e atestou através de uma fotografia em que ele aparece fantasiado. Na verdade, o grande viajante quase não saiu da Saxônia, sua terra natal.

Josiane Cotrim


17.07.07 – BRASIL EM FOCO:
Projeto escolhe país para promover literatura alemã  ACIMA
Reprodução da página principal do site Redatores visitaram Brasil

O sítio Litrix.de é um projeto de tradução que há três anos dedica-se a informar o mundo inteiro sobre as novidades literárias da língua alemã. Após os países árabes e a China, o Brasil foi escolhido para ser o centro de atenções do projeto. A cada ano, Litrix.de escolhe um país ou região onde intensificar o intercâmbio literário com a Alemanha. Desde junho que as atividades promocionais começaram no Brasil, devendo continuar até 2008. Assim, acontecem leituras e discussões com autores alemães, workshops com editores e tradutores brasileiros, que junto com parceiros locaisaos buscam promover a literatura alemã. O projeto é apoiado por um júri de críticos literários e tradutores brasileiros.

Em junho deste ano, dois redatores do Litrix.de estiveram em São Paulo e Rio de Janeiro a fim de conhecerem as principais editoras brasileiras e fornecerem informações sobre o projeto. “Nós ficamos muito impressionados”, disse Anne–Bitt Gerecke, chefe do projeto, sobre a variedade de editoras brasileiras e a grande demanda existente para a literatura alemã atual. A nova geração de escritores alemães é, no entanto, pouco conhecida. Segundo Gerecke, a oferta de informações existentes no website contendo as novidades em literatura alemã já atraiu grande interesse e resultou em muitos contatos com editoras. “Estamos felizes que nossa promoção esteja ajudando concretamente e que os títulos escolhidos estejam atingindo o mercado de livros”, concluiu.

O objetivo do projeto é favorecer uma impressão geral da literatura alemã, especialmente nos países onde o interesse na língua esteja crescendo, além de incentivar as traduções de livros atuais. No âmbito do seu programa promocional ele deverá traduzir de 20 a 25 livros para o português do Brasil neste ano e no próximo. O Litrix.de é um projeto de iniciativa da Fundação Federal de Cultura em cooperação com o Instituto Goethe e a Feira de Livros de Frankfurt, a maior do gênero.

Josiane Cotrim


09.07.07 - STEFAN ZWEIG:
O exílio e o isolamento de um filósofo  ACIMA
Retrato deStefan Zweig - Fonte: http://commons.wikimedia.org/ Imagem de domínio público Vienense escreveu a obra Brasil, País do Futuro

“Na existência do Brasil, cuja vontade está dirigida unicamente para um desenvolvimento pacífico, repousa uma das nossas melhores esperanças de uma futura civilização e pacificação do nosso mundo devastado pelo ódio e pela loucura”. Com este otimismo, o poeta e filósofo vienense Stefan Zweig descreveu o país que o abrigou do Holocausto, na obra Brasil, País do Futuro, origem da expressão que ouvimos até hoje.

Nos anos 40, exilado de sua terra natal, onde os nazistas proibiram que seus livros fossem publicados, o escritor de origem judaica dedicou-se a redigir sua própria versão da história brasileira. “Foi ele nosso hóspede, aqui viveu algum tempo; foi da Bahia ao Amazonas, de Pernambuco a São Paulo, de Minas ao Rio Grande; demorou, porém, no Rio de Janeiro. É um namorado de nossa terra e de nossa gente”, escreveria Afrânio Peixoto, no prefácio da obra. Quando chegou a seu retiro em Petrópolis, Zweig já era um intelectual de renome. Escrevera poesias e dramas, e traduzira inúmeras obras francesas para o alemão. Contrário à guerra, sonhava com uma Europa unida.

“Como todo exilado, sentia-se perdido e, porque era inseguro, sentia-se mais perdido ainda. Não queria ficar na Inglaterra por causa dos bombardeios, não queria ficar em Nova York porque estava apinhada de refugiados, velhos amigos. Foi escolher Petrópolis, Rio de Janeiro, Brasil. Apartou-se voluntariamente de tudo e de todos e o resultado foi a depressão”, explica, em entrevista ao Observatório da Imprensa, o jornalista Alberto Dines, autor de Morte no Paraíso: A Tragédia de Stefan Zweig, (Editora Rocco), biografia do filósofo com mais de 500 páginas. O isolamento e a decepção com a guerra que devastava a Europa natal levaram-no ao suicídio, junto com sua mulher, em Petrópolis, em 22 de janeiro de 1942.

Dennis Barbosa


07.06.07 – BIBLIOTECA PELA INTERNET:
Livros emprestados sem sair de casa   ACIMA
Novidade na Alemanha: biblioteca virtual

Os alemães agora podem pegar livros emprestados virtualmente nas bibliotecas públicas das cidades de Hamburgo, Colônia, Würzburg e Munique. Um projeto piloto foi implantado na última quarta-feira, colocando cerca de 10 mil títulos digitalizados à disposição dos leitores de toda a Europa. Esse é um projeto pioneiro que oferece não apenas e-livros, mas também vídeos e músicas. Tudo pode ser solicitado via internet a qualquer hora do dia ou da noite. O empréstimo tem uma duração média de cinco dias e, no final do prazo, o acesso ao material tomado emprestado é devolvido automaticamente à biblioteca. O sistema é pioneiro em toda Europa.

Josiane Cotrim


07.05.07 – MIA COUTO:
Releitura moçambicana de Schiller   ACIMA

Mais de 200 anos após sua morte, o escritor, filósofo e poeta alemão Frederich Schiller e sua obra não param de inspirar releituras com toques atuais. Em Moçambique, o grupo de teatro Motumbela Gogo, o escritor Mia Couto e o diretor de teatro Stephan Bruckmeier se uniram e transportaram a peça Os Bandoleiros (Die Räuber) para a realidade das pessoas que vivem na África. Os Bandoleiros foi a primeira peça escrita por Schiller e uma das mais polêmicas.

A adaptação foi feita por Mia Couto, escritor de sucesso, jornalista e biólogo que vive em Maputo, capital de Moçambique. A preocupação com as questões sociais e políticas continuam presentes nessa nova versão, que conta a história de Carlos, um moçambicano que na década de 80 foi estudar na antiga Alemanha Oriental (DDR) e conheceu a obra do escritor alemão, amigo de Goethe. Ao retornar à terra natal, os questionamentos são ampliados na proporção inversa em relação ao seu mundo.

A releitura da obra de Schiller foi apresentada com sucesso em festivais teatrais de Moçambique, Alemanha, Áustria e Suíça.

Christiane Dias


10.04.07 – “ACONTECIMENTO WEIMAR”:
Exposição recorda Goethe    ACIMA

Até outubro, uma exposição no castelo de Weimar, no coração da Alemanha, conta como a cidade tornou-se uma referência cultural na Europa entre 1757 e 1807. Nesse período clássico alemão, a Duquesa Anna Amalia e seu filho Carlos Augusto desempenharam um papel político muito importante na cidade. Mas, a pequena cidade da Turíngia certamente não teria a fama internacional que é mantida até hoje, sem a obra literária , política e econômica de Johann Wolfgang von Goethe. A mostra em Weimar é dedicada à lembrança das mortes de Goethe, há 175 anos, e da Duquesa Anna Amalia, há 200 anos.

Uma citação de Goethe inspira o nome da mostra: “Acontecimento Weimar”. Faz referência ao primeiro encontro de Goethe com Friedrich Schiller. Após o encontro Goethe teria dito que o mesmo tinha sido um “acontecimento feliz”. Com um orçamento de quase um milhão de Euros, o ponto alto do evento será no dia 24 de outubro, quando ocorrerá a reabertura da Biblioteca Anna Amalia que há três anos foi atingida por um incêndio.

Josiane Cotrim


15.03.07 –  BIBLIOTECA VIRTUAL:
Literatura alemã online   ACIMA

Obras clássicas da língua alemã, de Goethe aos irmãos Grimm, passando por volumes de coleções especiais e obras raras poderão ser lidos pela Internet. A biblioteca pública da Baviera associou-se ao sistema de busca Google num projeto de organização de biblioteca virtual. O Google irá digitalizar todos os livros da biblioteca cujos direitos autorais já caíram em domínio público e as obras passarão a integrar o sistema de busca de livros do portal. Dessa maneira, importantes obras da literatura alemã, assim como obras exclusivas da biblioteca da Baviera estarão acessíveis aos interessados do mundo inteiro.

A Biblioteca Pública da Baviera é considerada como uma das maiores bibliotecas de pesquisa da Europa.

Assim que os livros estiverem digitalizados, os interessados do mundo todo poderão ler as obras da Biblioteca Pública da Baviera na Internet utilizando o sistema de busca de livros do Google. Além das obras da literatura alemã, a biblioteca possui ainda uma variedade de livros em italiano, francês, espanhol, latim e em inglês que já cairam no domínio público e que poderão constar do index de busca do Google. Com isso, uma quantidade cada vez maior de obras em diferentes línguas estarão acessíveis a um número crescente de pessoas. Exemplares do volumoso arquivo de obras únicas e raras da Europa Oriental e Ásia também fazem parte do projeto de digitalização.

Com mais de 9 milhões de volumes e 49 mil assinaturas de revistas, a Biblioteca Pública bávara é considerada uma referência de pesquisa na Europa. A biblioteca possui mais de 89 mil manuscritos medievais assim como 20 mil livros antigos e raros e desempenha por isso um papel fundamental na disseminação e conservação do acervo escrito da cultura alemã.

dpa


15.03.07 - GOETHE:
O Cientista da paixão   ACIMA

Há 258 anos nascia na Alemanha um dos maiores escritores da história da humanidade: Johann Wolfgang Goethe. Nascido no dia 29 de agosto de 1749 em Frankfurt, na Alemanha, Goethe passou a maior parte de sua vida em Weimar. De lá, só saiu para ir à Itália em 1786, um de seus grandes sonhos de juventude e que influenciou decisivamente o seu processo de formação. Foi lá que ele aprendeu a disciplina estética e a exata medida, critérios que lentamente foram se impondo em suas obras até fazerem dele o representante maior do Romantismo e do Classicismo europeu. Filho de um advogado e de uma mulher bastante sensível, com reconhecidos pendores para a ficção, Goethe, dotado de uma percepção poderosa e sutil, logo se impressionou com o mundo à sua volta. Rapidamente descobriu o desenho e o poder das palavras. Estudou Direito por vontade do pai, mas a literatura atraiu-o como um imã. Embora tenha publicado muitos livros sobre os mais variados temas e formas, Goethe é conhecido do mundo como o autor do “Werther” e do “Fausto”.

Era dono de uma inteligência brilhante e de um agudo senso de observação além, é claro, de dispor de recursos variados para expressar e representar as suas sensações frente à diversidade da vida humana. Publicou poemas, romances, novelas, peças de teatro e teorias científicas, entre outras coisas. Escreveu um livro sobre a evolução da vida vegetal e a metamorfose das plantas; desenvolveu a idéia de uma planta protótipo que tenha dado origem a todos os vegetais e criou uma teoria das cores afirmando que elas surgem da união do claro e do escuro e não da luz propriamente dita, como ensinou Newton. Estabeleceu leis biológicas, que hoje soariam familiares aos pesquisadores da psicologia analítica, segundo as quais a transformação permanente constituiria o processo fundamental da vida. Era, enfim, um ser humano capaz de penetrar nos mistérios da vida por duas vertentes distintas e, na sensibilidade dele, complementares: através da análise científica e da criação poética, da observação da matéria e também do espírito; do real e do lúdico; das leis da ciência e da arte. Sua obra mais popular, no entanto, é um texto teatral que o ocupou durante quase 60 anos: “Fausto”. É a história de um homem que vende a sua alma ao diabo em troca do saber absoluto. A ambição de Fausto leva-o a fazer um pacto com Mefistófoles. No decorrer da trama, porém, Fausto conhece o amor através de Gretchen e tenta convencer Mefistófoles a anular o pacto. Ele não aceita e continua atormentando Fausto. É uma das obras teatrais mais encenadas no mundo.

Tive o prazer de traduzir dois de seus romances mais conhecidos: “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, para a Editora Estação Liberdade e “As Afinidades Eletivas” para a Editora Nova Alexandria. Ambos figuram até hoje entre os 100 livros mais lidos do mundo e serão relançados neste ano em meio às variadas comemorações a ocorrerem por este Brasil afora. A história de Werther, escrita em forma de cartas , é uma espécie de confissão íntima realmente única na literatura alemã; foi escrita em 1774 em apenas quatro semanas logo depois do autor completar 24 anos. Para muitos, trata-se de um romance autobiográfico, fruto da paixão de Goethe por Charlotte Buff a quem ele conhecera um pouco antes na cidade de Wetzlar e por quem se apaixonara profundamente. Apesar das similaridades e das coincidências com a vida real, o mais importante é que esta obra é uma verdadeira expressão de sua época, pela força poética de sua linguagem e por captar a necessidade de transcendência que agitava então os espíritos juvenis. O próprio Napoleão confessou a Goethe em 1808 que havia lido o livro sete vezes. Ele foi sem dúvida o maior acontecimento literário do século XVIII vindo a se tornar o primeiro bestseller da literatura ocidental e o maior sucesso literário do autor.

O tema do livro é a paixão, mas não a paixão disciplinada, comportada, condizente com os padrões e as regras vigentes até então. É a paixão sofrida até a mais absoluta destruição, até a aniquilação das forças vitais, na qual as barreiras da moral vêm totalmente abaixo. É o arrebatamento quase insano, a impulsividade livre e solta. Fica em primeiro plano, o conflito entre amor e casamento, como se fossem processos completamente antagônicos e excludentes. Aliás, essa foi a razão de muitas reações iradas do contemporâneos de Goethe e do relativo escândalo causado pelo livro. Naturalmente não foram só esses os alicerces abalados pelo livro; ele coloca em questão também o sentido da moralidade, as conveniências impostas pela sociedade e a força irracional da paixão.

Werther nutre um amor impossível, dadas as circunstâncias morais impostas pela sociedade, que o leva ao suicídio. Ele quer amar e possuir; fundir-se e multiplicar-se. Werther sente-se profundamente atraído pela loucura, pela Natureza e por Charlotte. Ama-a como quem precisa respirar para viver. Deseja estar permanentemente ao lado dela como quem se entrega ao que há de mais poderoso no universo: o amor. Quando finalmente não vê mais saída para a sua paixão extrema e o seu desejo absoluto, ele opta pelo suicídio cavalheiresco, pelo tiro nas têmporas e pela bravura juvenil. A morte surge como apaziguadora de todas as paixões e de todos os conflitos; ela dá um fim ao sofrimento e à dor de se ver eternamente sem amor. Ou pelo menos, sem aquele amor, daquele alguém específico. Contudo, ao contrário dos famosos amantes que povoam o nosso inconsciente representando o amor ideal, como Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Báucis e Filêmon, Paolo e Francesca, o que mais impede a união de ambos é o autocontrole excessivo de Lotte, pois até o final resta a dúvida se ela realmente o amava. Werther, com todo o vigor de sua juventude, ousou morrer em nome do sentimento mais sublime e mais humano; mais harmônico e mais desestruturador, causa de nossas maiores felicidades e de nossos maiores sofrimentos . Em suas atitudes aparentemente imaturas ecoam as palavras que Goethe anos mais tarde faria Fausto pronunciar : “O que foi concedido a toda a humanidade/ Quero usufruir em meu próprio ser.”

Já maduro, com 60 anos, Goethe retoma o tema da paixão avassaladora com todas as suas implicações e conseqüências escrevendo “As Afinidades Eletivas”. Utilizando-se do princípio químico pelo qual dois elementos agregados se separam para unirem-se a dois outros elementos, Goethe constrói uma alegoria para demonstrar a determinação das forças da natureza no tocante à atração irrefreável que junta as pessoas. O título do livro foi extraído das Ciências Naturais; trata-se de uma expressão  attractionibus electivis, usada para designar a atração entre dois elementos químicos diferentes, mas afins. Coincidentemente a personagem feminina principal também se chama Charlotte. Ela e o marido recebem em seu castelo um amigo e uma sobrinha. Na convivência diária as afinidades entre as pessoas vão se tornando mais evidentes e com o passar do tempo uma paixão irresistível irrompe desestruturando a vida do casal. O livro coloca muita coisas em questão: a fidelidade, o casamento e o significado do amor. A par disso, a mulher aparece no romance não como símbolo ou joguete nas mãos dos homens, mas na condição de interlocutora dotada de inteligência e de vontade.

O amor absoluto e a paixão absoluta são desejos profundos de toda a humanidade. É algo que está profundamente enraizado em nosso inconsciente e que nos impulsiona para a busca de uma existência plena e feliz. A necessidade de transcendência e o desejo de existir integralmente através do amor continuam sendo a mola propulsora da vida humana . Talvez seja isso o que ainda instigue tão intensamente as forças inconscientes do homem moderno dominado pela tecnologia, escravizado por um cotidiano repleto de compromissos, solitário e distante da Natureza e, faça da releitura de obras como essas uma experiência sempre fecunda e gratificante.

Erlon José Paschoal


19.03.07 – LEIPZIG:
Uma festa de livros a cada ano   ACIMA

A Feira de Livros de Leipzig, que ocorre de 22 a 25 de mar ço de 2007, é a irmã menor da maior feira de livros do mundo, a de Frankfurt. Em 2006, Leipzig recebeu 126.000 visitantes e 2.160 expositores. Frankfurt, no outono, recebeu 287.000 visitantes e 7.272 expositores. A diferença é que a Feira de Leipzig tem um perfil muito próprio. É uma feira voltada essencialmente para o público jovem. Neste ano, ela deverá atrair cerca de 30.000 jovens e crianças. Por isso, um em cada cinco expositores está se dedicando à nova geração de jovens leitores, priorizando as histórias em quadrinhos e os mangás. Escritores infanto-juvenis famosos estão vindo para as leituras.

O programa paralelo “Leipzig lê” vai transformar a cidade em um grande café literário: em mais de 1.900 eventos em cerca de 300 lugares diferentes, as pessoas vão ler, discutir, contar histórias e dar orientações. Aproximadamente 1.500 escritores, políticos, músicos e atores participam do evento. Os olhares não estarão voltados somente para a Alemanha: uma leitura recordará a jornalista russa assassinada Anna Politovskaia e escritores da Ucrânia e da Bielo-Rússia darão depoimentos sobre a situação dos países que estão à margem da União Européia.

No início da feira, será feita a entrega do Prêmio de Leipzig para o Entendimento Europeu, no valor de 15.000 euros. Neste ano, ele será compartilhado entre o publicitário alemão Gerd Koenen e 19.03.07o filósofo russo Michail Ryklin. Além disso, desde 2005, é concedido o Prêmio da Feira do Livro de Leipzig, no valor de 45 mil euros, que se tornou uma das mais importantes premiações literárias da Alemanha, distinguindo escritores e livros de três categorias.

A Feira tem uma longa tradição, que se iniciou no final do século XV, quando livreiros, impressores e editores fizeram de Leipzig um ponto de encontro. No século XVIII, a Feira superou sua rival de Frankfurt e manteve a primazia até a Segunda Guerra Mundial. Enquanto durou a República Democrática Alemã, era um importante ponto de encontro de bibliófilos, mas muitas editoras migraram para o lado ocidental. Depois da reunificação, a Feira de Livros de Leipzig restabeleceu-se e hoje está entre as 25 maiores do mundo.

Josiane Cotrim - Fonte: dpa


14.02.07 – TEMPESTADE E PAIXÃO:
O lado romântico do alemão   ACIMA

Tempestade e paixão influencia até hoje a cultura ocidental


Um jovem se apaixona perdidamente por uma garota inacessível. Não, não é uma paixão qualquer, é um sentimento profundo, agitado. Então ela se casa com outro homem, dando início a um grande sofrimento que culmina com o suicídio do rapaz. Você acha que isso é um drama mexicano ou uma novela brasileira? Está enganado! Essa história marca o começo da trajetória de Wolgang von Goethe, o grande nome do romantismo alemão. Junto com Friedrich von Schiller, ele cria o movimento literário “Tempestade e Paixão”, agradando a jovens da Alemanha e de toda a Europa. Até os dias atuais é forte a sua influência sobre a cultura ocidental, estando presente inclusive no Hino da União Européia.

O trecho inicial é um rápido resumo de “Os sofrimentos do jovem Werther”, provalvemente o primeiro best-seller da literatura alemã. Assim, Goethe inicia sua carreira literária. Com poemas, romances, contos e peças para teatro, ele ganha grande notoriedade na Alemanha nos finais do séc. XVIII. Atraído pela poesia desse jovem escritor, Schiller o convida para colaborar em seu jornal Die Horen e os dois se tornam líderes do “Tempestade e Paixão”.

Ao contrário do Iluminismo, esse movimento literário valoriza o sentimento, em detrimento da razão, e defende a liberdade individual sem limites. Suas obras são marcadas pelo amor arrebatador, que traz grande sofrimento. Dentre suas principais características está o rompimento da importante influência francesa – inclusive na língua –, abrindo espaço para a difusão e uso do idioma alemão.

Diversos artistas europeus foram influenciados por esse movimento, inclusive na música. Impressionado com a exaltação da fraternidade humana, presente no poema de Schiller, “Ode à Alegria”, Ludwig van Beethoven concluiu uma de suas peças mais importantes, a Nona Sinfonia. O quarto movimento dessa composição foi escolhido como Hino da União Européia, pela síntese que faz de ideais ligados ao Humanismo, à Fraternidade, à Liberdade e Igualdade.

Bruno Blankenburg


14.02.07 - LITERATURA INFANTIL:
Histórias sem fim   ACIMA

Pense na sua história infantil favorita. Pensou? Existe uma grande chance dessa história ter uma longínqua origem alemã. Narrativas como Branca de Neve e os Sete Anões, Cinderela, João e Maria e Rapunzel foram ouvidas e registradas pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm em viagens realizadas por toda a Alemanha durante finais do século XVII e início do XVIII e têm sido contadas e recontadas para meninos e meninas do mundo inteiro até os dias de hoje.

Buscando conhecer a língua e a realidade alemã, os irmãos Grimm se deparam com centenas de contos, fábulas e lendas que remontavam o período medieval e passaram a escrever as narrações ouvidas, muitas delas ainda sem um registro formal até então. Cada história foi um pouco modificada pelos autores, que ora atenuavam as cenas mais dramáticas, ora carregavam nas doses de fantasia, para encantar as crianças de seu tempo. O sucesso do seu trabalho foi imediato e acabou inaugurando uma espécie de "tradição" alemã de publicações infantis.

Em 1979, cerca de 200 anos após os Irmãos Grimm, um outro autor alemão torna-se famoso por seus livros infantis. Filho do pintor surrealista Edgar Ende, Michael Ende fez as crianças sonharem com a realidade fantástica da sua "História sem Fim" (Die Unendliche Geschichte) e de outros livros como Momo, o Senhor do Tempo e Jim Knopf.

Mais do que um livro de histórias, Ende criou um universo fantástico, onde a realidade é desafiada, tempo e espaço ganham novos conceitos e a imaginação pode voar livremente. A divulgação massiva de “História sem Fim” por meio de suas adaptações cinematográficas estimulou muitos jovens e crianças a lerem mais e mais, esperando, como o protagonista da obra, encontrarem um livro mágico que os levasse a outras dimensões. Nesse sentido, o grande legado de Ende foi mostrar aos seus leitores que todos os livros são mágicos, bastando para isso usar um pouco de imaginação.

Mágica também é o mote das obras de Cornélia Funke. Seu romance "Coração de Tinta" (Tintenherz) conta na forma de uma trilogia a história de um homem que, através da leitura, é capaz de dar vida aos personagens de um livro. Essa pedagoga nascida em Dorsten, na Vestifália, lançou suas obra para o mundo após traduzi-las para o inglês por conta própria, com a ajuda de uma prima que trabalhava numa editora londrina. Hoje, seus livros alcançaram a categoria de best-sellers mundiais. "Cavaleiro do Dragão"  (Drachenreiter) permaneceu 78 semanas na lista dos mais vendidos do “New York Times”, "Coração de Tinta" manteve-se por 19 semanas e "O Senhor dos Ladrões" (Der Herr der Diebe) vendeu 1,5 milhão de exemplares nos EUA, além de ter sido transformado em filme em 2006.

Da Alemanha para o mundo a trajetória desses autores e obras parece indicar que existe uma linguagem universal que torna a literatura infantil tão atrativa para crianças e adultos: a fantasia. Resta torcer para que outros autores alemães sejam traduzidos para o português, transformando esse "intercâmbio literário" numa espécie de história sem fim.

Carolina Figueiredo


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