MÚSICA CLÁSSICA
 

ANNE-SOPHIE MUTTER: Premiada
O REGENTE MIDIÁTICO: “Karajan era Rock’n Roll”
O MAESTRO E SUA ORQUESTRA: Uma mútua inspiração
DESPEDIDA: Aplausos para Christoph Schlingensief em Bayreuth
POLÊMICA À VISTA EM BAYREUTH: Bisneta de Wagner estréia
DIETRICH BUXTEHUDE: Mestre da música barroca

WAGNER TROPICAL: Diretor alemão surpreende em Manaus
ORQUESTRA: O que torna o cenário musical alemão tão
interessante, Sra. Young?

BEETHOVEN; Inspiração para o hino da Europa
BEETHOVEN: O Gênio de Bonn
RICHARD STRAUSS: Dresden homenageia o compositor


25.04.08 – ANNE-SOPHIE MUTTER:
Primeira mulher a ganhar prêmio "Ernst von Siemens"ACIMA
Anne Sophie - Fonte: Picture Alliance/dpa

A solista alemã Anne-Sophie Mutter, mundialmente conhecida, é a primeira mulher a ser contemplada com o prêmio de música Ernst von Siemens, quinta-feira (24.04), em Munique. Num valor de 200 mil euros trata-se de um dos mais cobiçados prêmios do mundo musical. Na opinião do crítico de música Joachim Kaiser, a violinista é um "presente para o mundo". Com 44 anos de idade, há mais de 30 anos Anne-Sophie Mutter está entre os maiores violinistas do mundo. Ela tinha apenas 13 anos quando foi descoberta pelo maestro Herbert von Karajan.

Além de possuir um vasto repertório tradicional, Anne-Sophie apresenta sempre novidades para o público. Segundo o júri, poucos intérpretes de nível internacional se preocuparam tanto com a música contemporânea como ela. Vários compositores escreveram peças musicais especialmente para a solista Anne-Sophie: Henri Dutilleux, Sofia Gubaidulina, Wolfgang Rihm assim como seu ex-marido André Previn.

Colecionadora de prêmios, Anne-Sophie Mutter é uma grande incentivadora de jovens talentos.   Através de concertos beneficentes a violinista apóia projetos sociais e a metade do valor do prêmio que acaba de receber será doado à uma fundação que ela mantém com vistas a promover talentos musicais do mundo inteiro.

Redação


24.04.08 – O REGENTE MIDIÁTICO:
“Karajan era Rock’n Roll” ACIMA

Como nenhum outro regente do século 20, Karajan tornou-se conhecido para além da torre de marfim da música clássica
Exposição sobre o Maestro - Fonte: Deutsche Welle Perfeccionista

Seu objetivo era a sonoridade perfeita – a harmonia absoluta, livre de ruídos. Para Herbert von Karajan, cada som, cada instrumento, deveria ser claramente reconhecido. Este “som de ouro” parece não ter perdido o efeito até hoje. O regente-estrela, que no dia 05 de abril deste ano completaria 100 anos, e sua busca pelo som perfeito inspiram ainda hoje os músicos – atravessando todas as fronteiras do gênero.

É o que diz a mezzosoprana Christa Ludwig: Karajan deu valor “aos belos fraseados, à harmonia e ao legato”. Ela ainda completa: “Hoje as pessoas diriam que Karajan chegou ao groove”. O especialista em groove Lenny Kravitz opina: “Karajan era Rock’n Roll”.

Uma vez Karajan, sempre Karajan
Para Mike Oldfield, que tem atualmente a "Música das Esferas" como sua primeira obra com uma orquestra sinfônica, Karajan foi o dirigente cujas interpretações de uma peça clássica tornavam-se referência. "Se eu procurasse uma gravação de um trabalho clássico, era por Karajan que eu geralmente me decidia. É possível identificar-se de tal maneira com sua audição, que a mesma peça não soa mais correta quando executada por outra pessoa".

Porém, a intuição para o que as pessoas querem ouvir deu a Karajan, ainda em vida, a reputação de populista. Colegas como Nikolaus Harnoncourt culpam indiretamente o maestro pela degradação da música clássica como mero entretenimento.

Obcecado pela técnica e regente midiático
É incontestável o fato de que Karajan também estabeleceu referências técnicas. Acertadamente ele é considerado o primeiro "regente midiático" da história da música e o primeiro bem-sucedido dirigente musical de grande estilo. Karajan foi um dos pioneiros ao transformar a música em imagem. Ainda nos anos de 1930 Karajan já se interessava pelas possibilidades de gravação em disco de vinil. O maestro é um dos pioneiros nos videoclipes.

Com a mesma inflexível vontade com que ele em tudo o que fazia aspirava a perfeição, aplicou as mais modernas técnicas de sua época para reproduzir a música de suas óperas e concertos em película. Com o antigo chefe da companhia Sony, Akio Morita, o obcecado pela técnica deu impulsos cruciais para o desenvolvimento do disco compacto, o CD.

"Eu sou requisitado em toda parte"
A visão de Karajan para talentos também é elogiada. Descobriu as cantoras Hildegard Behrens e Agnes Baltsa e a violinista Anne-Sophie Mutter. Mas também o planejamento de sua própria carreira Karajan não deixou ao acaso. Assim, filiou-se - obviamente por razões da carreira – ao Partido Nacional-Socialista (NSDAP) de Adolf Hitler, que lhe conferiu um engajamento em Berlim.

Entretanto, foi após a 2ª Guerra Mundial que a carreira de Herbert von Karajan decolou. Após a morte de William Furtwaengler ele se transformou em 1955 em chefe da Filarmônica de Berlim, e permaneceu no posto até pouco antes de sua morte. Ele conduziu ocasionalmente também o Festival de Salzburg e a Ópera Estatal de Viena, e como maestro convidado freqüentemente regeu em New York e em Milão. Um gracejo resume esta ubiqüidade: Karajan chega em algum lugar, pega um táxi. À pergunta "onde" responde: "não importa, eu sou requisitado em toda parte". Herbert von Karajan teve uma posição de poder como nenhum outro regente do século 20. Decaiu apenas em seus últimos anos de vida, quando adoeceu e rompeu com a Filarmônica de Berlim. Karajan morreu em 16 julho 1989, aos 81 anos, em Anif, perto de Salzburg.

Redação


15.01.07 – O MAESTRO E SUA ORQUESTRA:
Uma mútua inspiraçãoACIMA

Uma união feliz: o grande regente britânico e a Filarmônica de Berlim, a orquestra número um da Alemanha, inspiram-se mutuamente. O resultado: música maravilhosa e trabalho engajado para Berlim
Sir Simon Rattle - Fonte: Revista "Deutschland" Sir Simon Rattle

A Filarmônica de Berlim, sob a regência de sir Simon Rattle, é considerada uma das melhores orquestras do mundo (em Berlim, ela é considerada, naturalmente, a melhor de todo o universo). De 1955 a 1989, sob a regência do “mágico dos sons”, Herbert von Karajan, a Filarmônica tornou-se uma orquestra da mídia – com consideráveis conseqüências para a autoconfiança profissional, para a perfeição técnica, a beleza dos sons e a exatidão. Claudio Abbado (1989–2002) abriu a orquestra para nova música e novas idéias, dando espaço ao seu som, introduzindo maneiras não autoritárias. Ele preparou o caminho para sir Simon Rattle que foi eleito pela orquestra especialmente para superar os desafios do século XXI: a nova mídia, as novas ondas de migração, o deslocamento na hegemonia cultural.

Por que se precisa hoje, no 125º aniversário da Filarmônica, de uma orquestra de luxo, muito bem paga? Naturalmente para dar concertos maravilhosos, mas também para estar presente em Berlim e por Berlim. Foi assim que surgiu a idéia do projeto de educação “Zukunft@BPhil”, com o qual a orquestra obteve uma enorme ressonância na mídia, também graças ao filme “Rhythm is it”. Incansáveis, os músicos da Filarmônica elaboraram projetos com jovens de Berlim – não só espetaculares eventos de dança, mas também muitas outras tematizações da música. Além do mais, os programas tornaram-se imprevisíveis, mais coloridos, mais provocantes. Nem todos concordam com o amor do britânico Rattle pela música inglesa, com a sua obsessão pelo detalhe na forma de musicar já quase aventureira, com a sua maneira de sobressaltar sons secundários e efeitos sonoros. O debate sobre o “som alemão” que a orquestra supostamente perdeu sob a batuta de Rattle, se bem que tenha sido só um debate fantasma, demonstra a preocupação de que a orquestra não possa mais representar a identidade da cidade, do Estado.

“Esta orquestra pensa e age muito rápido, como cada um dos músicos”, diz Rattle sobre os seus 129 virtuosos. “Eles nunca ficam parados. Talvez seja porque a cidade de Berlim também funciona assim”. Os músicos da Filarmônica sabem que é terrível ser a melhor orquestra, pois isto significa trabalho duro todo dia. Mas eles não têm escolha. No fundo, não querem outra coisa.

125 anos de Filarmônica de Berlim

1882
No dia 17 de outubro de 1882, a nova Orquestra Filarmônica, surgida da “Vormals Bilse’sche Capelle”, dá seu primeiro concerto. Os primeiros decênios são marcados por uma situação financeira insegura.

1887–1954
Com Hans von Bülow (1887–1893), Arthur Nikisch (1895–1922) e Wilhelm Furtwängler (1922–1945 e 1947–1954), a orquestra é regida por três dos mais importantes dirigentes do seu tempo.

1955
Herbert von Karajan assume a direção artística, caracterizando a Filarmônica por 34 anos – até poucos meses antes de sua morte –, por mais tempo que seus antecessores.

1963
Projetada por Hans Scharoun, é inaugurada a nova Filarmônica, uma pérola arquitetônica da modernidade berlinense. Ela ficava ao pé do muro. Hoje, ela fica na direta vizinhança da vida turística na praça Potsdamer Platz.

1989
O italiano Claudio Abbado assume a batuta. O maestro italiano rejuvenesceu claramente a orquestra, liberando-a da rigidez da era posterior de Karajan.

2002
A orquestra elege como diretor artístico o britânico sir Simon Rattle, um dos mais carismáticos regentes contemporâneos. Rattle abre também os trabalhos da orquestra para projetos integrativos com jovens berlinenses.

Wolfgang Fuhrmann (Revista "Deutschland")

LINK:
Filarmônica de Berlim


27.08.07 – DESPEDIDA:
Aplausos para Christoph Schlingensief em Bayreuth ACIMA

O “adeus” oficial aconteceu no início do mês, durante a primeira apresentação de Parsifal. Mas foi domingo, dia 26 de agosto, que a ópera dirigida por Christoph Schlingensief foi encenada pela última vez nos palcos da Festspielhaus, em Bayreuth. Ele, diretor polêmico, alcançou, nesses quatro anos à frente de Parsifal, o feito de chegar com a sua produção Kult ao coração do tradicional wagneriano. Schlingensief acena do palco. O público acena de volta, aplaude. As mãos ao alto. “Bayreuth me abriu possibilidades fantásticas e também me ensinou o domínio do meu próprio eu”, disse em entrevista ao diário Der Tagesspiegel.

No palco, pessoas andam em todas as direções. Animais, magia de vodu, terroristas, coelhinhos da Páscoa que vão do grande ao pequeno, do verdadeiro ao falso e do morto ao vivo. O jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung lamenta o fato de essa ser a última encenação do que chama “turbulento Parsifal” e afirma: “A direcäo de Schlingensief é um ótimo exemplo de como o conceito desse Festival pode amansar até os mais ousados provocadores”. Há quem resista à modernização da ópera. E eles vaiam. Mas a verdade é que Schlingensief veio em tempo de revigorar o trabalho anterior, sob a direção de Wolfgang Wagner, chefe da Festspielhaus, que esteve 12 longos anos no programa.

Com “vida-relâmpago” nas mãos de Schlingensief, Parsifal ganhará para a próxima temporada de verão produção da italiana Daniele Gatti e direção do norueguês Stefan Herheim. O polêmico diretor, no entanto, agradece ao seu público, o consola e dá a deixa: “claro que eu voltarei. Adoraria, por exemplo, dirigir Tristan…”.

Aline Mara Afonso


23.07.07 - POLÊMICA À VISTA EM BAYREUTH:
Bisneta de Wagner estréia ACIMA
Festspielhaus em Bayreuth - Fonte: ColourBoxFestival acontece há mais de 130 anos

“Sinto-me tão fortemente vinculada a Bayreuth, que poderia abrir mão de tudo para poder me dedicar inteiramente a isso”. Em entrevista à agência de notícias DDP, Katharina Wagner não esconde seus anseios: é espontânea, jovem e confiante. Mas na próxima quarta-feira, dia 25, não quer estar na Festspielhaus para a estréia da primeira ópera que dirige: “tenho medo de passar o meu nervosismo para os cantores”, explica.

A obra que abre a carreira da jovem é a mesma que encerrou a do pai: “Meistersinger von Nürnberg” promete, sob a direção da caçula de Wolfgang Wagner, inovações à clássica encenacão. Lembrando que toda e qualquer quebra da tradição – quase um tabu! – sempre foi conduzida com muita cautela pela família Wagner, o diretor Christoph Schlingensief, em conversa com o diário “Frankfurter Rundschau”, comenta as suas expectativas para a noite: “vão falar que ela quer chocar, que quer provocar um escândalo”. Ousada, Katharina quer mais e é forte candidata à sucessão da liderança geral do festival.

Desde a sua fundação em 1876 pelo compositor Richard Wagner, a Festspielhaus em Bayreuth, ao norte da Baviera, sobreviveu às duas guerras mundiais para assegurar a cultura wagneriana no país e conta agora com a sua sexta direção. Inicialmente teve presenças ilustres como as do rei Ludwig III da Bavária, da rainha Maria Theresa e de outros aristocratas. Na era nazista as óperas de Wagner, compositor preferido de Hitler, ganharam popularidade.
 
Determinada, a jovem Katharina, de 29 anos, admite e não teme as possíveis associações da obra escolhida com a sua polêmica história – sua adoção durante o governo de Hitler para as celebrações do regime nazista – e aposta: “o tempo modifica a visão das pessoas”

Aline Mara Afonso


07.05.07 DIETRICH BUXTEHUDE:
Mestre da música barroca ACIMA

No dia 9 de maio deste ano completam-se 300 anos da morte de um dos artistas mais notáveis da Europa. Ele influenciou não apenas a música barroca, mas também muitos compositores clássicos como Johann Sebastian Bach e Georg Friedrich Handel. Estamos falando de Dietrich Buxtehude, um organista talentoso que não deve ser esquecido pelas gerações futuras.

Buxtehude trabalhou quase 40 anos, de 1668 a 1707, na Marienkirche (“Igreja de Maria”) em Lübeck, no norte da Alemanha. Destacam-se diversos concertos, corais, suítes, prelúdios, árias, tocatas e fugas, a maioria de caráter religioso. Vale a pena ressaltar a “Missa brevis” e o Ciclo de Paixão “Membra Josu Nostri”.

Quem acha que Buxtehude é coisa do passado, está muito enganado. Até hoje ele influencia diversos músicos, inclusive no Brasil. Sua comunidade brasileira no Orkut tem mais de 200 membros!

Com o objetivo de tornar esse importante músico mais conhecido no mundo contemporâneo, foi fundada em 2004 a Comunidade Internacional Buxtehude (Internationale Dietrich-Buxtehude-Gesellschaft). Essa organização também está promovendo diversos eventos em lembrança aos 300 anos da morte de Buxtehude.

Bruno Blankenburg


20.04.07 - WAGNER TROPICAL:
Diretor alemão surpreende em ManausACIMA

Com uma interpretação ao ar livre da ópera “O Holandês Voador” (Der Fliegende Holländer, conhecido também como “O Navio Fantasma”) de Richard Wagner foi aberto o 11º Festival Amazonas de Ópera, na sexta-feira, 20 de abril. O público foi agraciado com uma montagem carnavalesca e inusitada do polêmico diretor alemão Christoph Schilingensief, cujos espetáculos vêm escandalizando os admiradores mais conservadores do compositor alemão. O diretor passou três meses na Amazônia preparando a produção vista por centenas de pessoas. Desta vez, o diretor incluiu tambores, personagens do folclore regional e passistas de escola de samba de biquini na montagem que foi apresentada também no Teatro Amazonas nos dias 22 e 25. A encenação será ainda levada ao público em São Paulo e irá, provavelmente, para a Alemanha como declarou o diretor em entrevista à imprensa.

Josiane Cotrim


02.04.07 – ORQUESTRA:
O que torna o cenário musical alemão tão interessante, Sra. Young? ACIMA

A australiana Simone Young é a mulher à frente da Staatsoper de Hamburgo. A Alemanha sempre desempenhou papel central na vida da dirigente
Dirigente Simone Young - Fonte: DZT/Revista "Deutschland"

À esquerda, vê-se o Alster, o lago em meio ao centro de Hamburgo. Olhando-se para a frente, a vista passa pelas torres das igrejas e pela prefeitura até o porto. Fora uma grande escrivaninha, no escritório de Simone Young, no oitavo andar do novo prédio administrativo da Staatsoper de Hamburgo, só há um divã, com design assinado por Le Corbusier. Mas a dirigente não tem tempo para descansar na arcaica e elegante criação do famoso arquiteto suiço, nem para olhar pelas grandes janelas sobre a cidade hanseática.

Desde a temporada 2005/2006, ela é a superintendente e administradora da Staatsoper de Hamburgo e diretora musical da Orquestra Filarmônica Estatal, uma das mais importantes orquestras alemãs. O trabalho já é em si extenuante. Realizado no alto nível cobrado pela australiana cheia de energia, ele exige esforços hercúleos. Paralelamente aos preparativos para receber diversos regentes convidados, a recém-nomeada professora da Musikhochschule (Escola Superior de Música) de Hamburgo ensaia atualmente com a sua orquestra “A mulher sem sombra”, de Richard Strauss. Preparada com perfeição também tem de ser a entrevista coletiva sobre o mais ambicioso projeto de Young até o momento em Hamburgo: o “Anel do Nibelungo”, planejado para o período de março de 2008 a outubro de 2010. E como se isso não fosse o bastante, ela ensaia ao mesmo tempo o primeiro ato de “A Valquíria”, que deverá subir ao palco da sala de concertos Laeiszhalle, numa apresentação de gala com Plácido Domingo. “Domingo foi meu primeiro Sigmund”, recorda-se comovida a maestrina. Isto foi em 1996 na Convent Garden Oper, em Londres. Sua carreira começava a subir rapidamente. Não há quase nenhuma casa de óperas e sala de concertos de renome no mundo, em que Simone Young ainda não tenha brilhado.

Em 1987, no início de sua carreira, quando era co-repetidora em Colônia, Young colocou para si, aos 26 anos, a meta de chegar a seu quadragésimo aniversário com “quatro grandes óperas encenadas”. Aos 40, ela dominava 65 óperas, entre elas o “Anel” de Wagner, o qual ensaiou em Bayreuth no início dos anos 90, como assistente de seu grande incentivador Daniel Barenboim. Hoje, já somam mais de 70, “26 somente na Staatsoper de Viena”, diz ela suspirando. Faz tempo que ela deixou de fazer as contas. E se aborrece em ser vista apenas como uma mulher recordista. “Somente minha mãe ainda gosta de mencionar que sua filha foi a primeira mulher, lá e acolá, a subir no pódio desde a fundação”. Apesar disso, há que dizer: Simone Young foi a primeira mulher a estar no pódio de regência da Staatsoper de Viena e da Ópera Bastille, em Paris, e, na Alemanha, a primeira a dirigir o ciclo completo do “Anel” de Wagner. Da mesma forma, em seu novo domicílio, Hamburgo, ela é a primeira mulher no posto mais alto e, como sempre, uma das poucas diretoras de uma grande orquestra em todo o mundo.

Simone Young fala fluentemente quatro idiomas. Sua origem e sua vida são literalmente mundiais. A Alemanha sempre gozou de uma certa preferência. Ela veio para cá após a conclusão dos seus estudos. As babás de suas duas filhas tinham de saber falar alemão e as duas cresceram bilíngües. O alemão é uma das línguas mundiais da grande música. “Quando eu dirijo Bruckner”, deleita-se ao contar, “ou a Nona de Mahler ou ‘Tristão’, eu não fico de maneira alguma tensa – ao contrário, por momentos sou absolutamente feliz”.

Em todo o mundo, a Alemanha é identificada sobretudo pela qualidade de seus produtos industriais. “Eu acho entretanto ainda mais peculiar a densidade da rede alemã de teatros, casas de óperas e orquestras”, afirma. “Como australiana, digo em alto e bom tom que a Alemanha deve ter orgulho de seus teatros por funcionarem tão bem”. Na Alemanha existem 140 orquestras profissionais – e não é só nas grandes cidades que se faz música do mais alto nível. Uma boa aula de música é importante, acredita a maestrina. Por experiência própria, Simone Young sabe o quanto a criatividade e a sociabilidade da música também significam para profissões não-musicais. Sua filha mais velha toca violino e dedica-se ao teatro, mas estuda Física em Cambridge. “Sou favorável a que nos ocupemos também com coisas que custam tempo e a curto prazo não têm qualquer utilidade”, diz ela, “mas que nos fazem progredir como pessoas”.

Simone Young nasceu em Sydney. A mãe foi para a Austrália como filha de imigrantes croatas e casou-se com um advogado de ascendência irlandesa. Sua avó era analfabeta. Duas gerações de mulheres mais tarde, a neta contradisse, de uma vez por todas, a velha e absurda tese de que mulheres não servem para comandar uma orquestra. Para Simone Young, a relação gênero e profissão não está mais em questão. Ela quer ser avaliada por seu desempenho como artista. Um colega americano, conta ela, disse-lhe certa vez estar convencido de que um jovem dirigente teria exatos dez minutos para provar sua capacidade diante de uma orquestra. “Você, como mulher, disse ele, tem apenas dois minutos. Eu, porém, acho que todos os dirigentes têm apenas dois minutos”.

De onde ela tira energia para se impor de tal forma e com tanto sucesso? “Da música”, responde rapidamente Simone Young. “Eu sou uma música nata”. Com certeza. Mas assim fala a maioria dos músicos. “Eu tenho uma vontade forte”, acrescenta ela. “Às vezes, me faz bem, às vezes não. Eu já me contundi gravemente, quando quis, de qualquer jeito, vencer determinadas corridas – e fui a ganhadora –, mas não estava absolutamente treinada para elas”. Ela conclui tais frases com um poderoso sorriso enigmático, que transparece felicidade, mas também impõe respeito.

Simone Young ama paisagens “que estão quase vazias”. Ela tem de ir, de qualquer maneira, uma vez à Groelândia. O mar também é vazio. Ela começou sua vida em Sydney junto à água. “Música tem muito a ver com água”, afirma. “Sente-se sua profundidade, mas não é possível vê-la, tal como o som da música”. Seu primeiro cargo de direção, em 1998, na Filarmônica de Bergen, também ficava diretamente na rochosa costa oeste da Noruega. Em 2001, ela retornou mais uma vez para Sydney por dois anos, como diretora da Ópera Austrália, a famosa casa de óperas às margens do Pacífico. Na mais recente estação de sua carreira profissional global não é diferente: “Mesmo que Hamburgo só esteja ligada ao mar através do rio Elba, pode-se cheirar o mar. De alguma forma, preciso disso. Somente me sinto bem quando percebo que o mar não está longe”.

Stefan Siegert (Revista "Deutschland")


19.03.07 – BEETHOVEN:
Inspiração para o hino da Europa   ACIMA

Naquela sexta-feira, dia 7 de maio de 1824, na estréia de sua Nona Sinfonia em Ré menor, em Viena, Ludwig van Beethoven, nascido em 1770, já não podia mais escutar os aplausos inflamados do público. Completamente surdo, viu a orquestra tocar, os solistas se deslocarem pelo palco. Lendo o texto e observando os movimentos dos lábios de seus membros, acompanhou o coro que, no final da peça, pela primeira vez, cantou “Alegria, Bela Centelha dos Deuses”. Quase três anos depois, em 26 de março de 1827, morria o grande compositor.

Até hoje, a “Nona de Beethoven”, como é conhecida, não é apenas um dos grandes clássicos da música erudita. A famosa parte do coral de seu último movimento, baseada na “Ode à Alegria”, de Friedrich Schiller, é, desde 1985, o hino oficial da União Européia. Provavelmente essa versão musical de Beethoven tenha imortalizado a frase de Schiller: “os homens todos voltam a ser irmãos”. Na noite do dia 1º de maio de 2004, vários países comemoraram o ingresso na União Européia, e o ponto alto de cada festa foi a apresentação da “Ode à Alegria”, da Nona Sinfonia.

Considerada obra-chave da música sinfônica, a “Nona” é considerada o ápice do processo criador de Beethoven. Pela primeira vez, introduziu-se a voz humana no grand finale coral de uma sinfonia. Nenhuma outra obra da história da música sinfônica teve tamanha repercussão. Mais tarde, ela viria a influenciar a obra de grandes compositores como Anton Bruckner e Gustav Mahler.

Há muitos anos, Beethoven já alimentava a idéia de musicar a “Ode à Alegria”, de 1785, mas foi somente doze anos após concluir a Oitava Sinfonia, em 1812, que ele terminou a “Nona”. A doença, a solidão e a crescente surdez marcaram sua vida todos esses anos.

Redação


14.02.07 – BEETHOVEN:
O Gênio de Bonn   ACIMA

É quase impossível passear pela cidade alemã de Bonn sem cruzar com ele. Onipresente nas vitrines, nos cafés, nas livrarias, nos hotéis... para qualquer lugar que se olhe está Beethoven, gênio da música e símbolo do local.

Ludwig van Beethoven nasceu em Bonn em dezembro de 1770. Filho do tenor Johann van Beethoven, desde muito pequeno ele recebeu lições de música de seu pai. Mais velho de dois irmãos, Kaspar e Nikolaus,  Ludwig foi o único dos filhos de Johann a dedicar-se integralmente à música.

Aos 9 anos, Beethoven já demostrava um talento excepcional. Para aprofundar seus conhecimentos, a família o deixou sob a tutela de Christian Gottlob Neefe. Já aos 11 anos, Ludwig compôs suas primeiras peças, e em 1784 foi convidado para ser segundo organista da capela do Eleitor e integrar a orquestra da corte. Três anos depois viajou pela primeira vez à Viena, centro de convergência de músicos e artistas europeus da época, onde conheceu Mozart, por quem foi diretamente influenciado.

Jovem promissor, Beethoven se mudou definitivamente para Viena alguns anos depois, onde viveu até a sua morte em março de 1827. Na cidade, o compositor Haydn imediatamente se ofereceu a Ludwig para realizar 'estudos vigiados' com ele. Nesta época, Ludwig, também tomou lições com Albrechtsberg e Salieri, e exibia-se como pianista virtuose nos salões aristocráticos.

Apesar das suas maneiras rudes e do seu republicanismo ostensivo, Beethoven sempre foi protegido pela alta sociedade vienense, encontrando lá, amigos e mecenas. Na  capital do Império Austríaco ele realizou suas composições mais célebres, como o exercício “Para Elise”, a ópera “Fidélio” e a estonteante "Ode à Alegria", considerada por muitos sua obra prima, baseada no poema homônimo de Schiller.

Segundo relatos da época, "Ode à Alegria" foi composta quando Bethooven já se encontrava quase totalmente surdo. A doença começou a se manifestar em 1784 e progrediu gradualmente durante a sua vida. Fazendo-o diminuir o ritmo da sua produção. Mesmo assim, nos seus últimos anos de vida, o compositor  escreveu importantes quartetos de cordas e estava trabalhando em uma décima Sinfonia, pouco antes de morrer em 26 de março de 1827. Sua popularidade era tanta que cerca de 10 mil pessoas compareceram ao funeral.

A obra de Beethoven representa a transição do classicismo musical, marcado por composições formalmente rígidas, para o romantismo, gênero onde o autor procura extravasar seus sentimentos através da música. Mesmo passados 180 anos de sua morte, as notas pulsantes e a criatividade jovial de suas criações, fazem dele um compositor extremamente atual, por quem o interesse só parece aumentar com o passar do tempo. Prova disso é o lançamento  recente do filme "O segredo de Beethoven" em 2006. Uma produção Alemã e Norte-americana, dirigida por Agnieszka Holland.

Em Bonn Beethoven parece continuar vivo, caminhando pelas ruas, fazendo suas composições ecoarem por teatros e praças e inspirando novos talentos. Com ares de pop-star ele faz sucesso entre os turistas. Para quem gosta de música, conhecer a cidade é um passeio quase obrigatório. A casa onde Beethoven nasceu é hoje um museu que possui um dos maiores acervos do mundo sobre sua vida. Quem programar a viagem com mais antecedência, pode assistir a um dos concertos da orquestra Beethoven ou aproveitar a Beethovenfest que ocorre em Bonn entre agosto e setembro deste ano. Para os ouvidos mais apurados, haverá também em 2007 uma competição internacional de execuções em piano, em homenagem ao compositor. Um verdadeiro deleite para quem se interessa pelas obras-primas desse alemão.

Carolina Figueiredo


02.02.07 – RICHARD STRAUSS:
Dresden homenageia o compositor   ACIMA

A cada ano a capital da Saxônia presta homenagem ao compositor Richard Strauss que, durante sua vida, dedicou-se por seis décadas à Ópera Nacional de Dresden. Nove das doze óperas compostas por Strauss tiveram estréia nesta cidade e dali partiram para as grandes salas de óperas do continente europeu. Este ano serão apresentadas ao público presente aos festejos “dez obras em 10 dias”. O repertório inclui peças raras que poucas vezes foram apresentadas ao público, como por exemplo, “Friedenstag” (Dia de paz) “Die Liebe der Danae” (O amor de Danae) e “Die schweigsame Frau” (A mulher silenciosa).

Josiane Cotrim

 

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